sábado, 10 de outubro de 2009

SERTÃO D'ÁGUA

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Sertão d’água

Marcos Quinan


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2001



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Capa
Biratan Porto

Fotografia e Preparação
Roseli de Assunção Naves

Revisão
Conceição Elarrat



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Para
Eudes Fraga
e
Nilson Chaves



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Agradeço a Terezinha Lima, Antonio, Hugo, Raimunda e Elizabeth da Biblioteca Pública Arthur Vianna; a Doralice Romeiro do Departamento de Informação e Documentação do Museu Paraense Emílio Goeldi; a Edyr Augusto Proença, Conceição Elarrat, Ubiratan Porto, Vicente Salles e Paulo César Pinheiro.



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nascer Zé do Tucano
nascer Sabá do Talho
um pouco em cada nasci
qual, de cada Brasil
a cortina de miriti
descobre o maior pedaço
é o traço que deixo aqui


M.Q.



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"toda veiz qui vô cantá
o canto de amarração
me dá um pirtucho na guela
e um nó no coração"

Elomar




"grande é grande
é os meus desejar
jito é os prazos que a vida dá"

Walter Freitas



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Sabá do Talho


A cabeça era um oco desde quando acordou. A boca amargava seca com uma sede que a água da moringa não saciava. O corpo parecia não estar naquela cama, exceto pela dor persistindo nas costas acompanhando cada mudança de posição. Ouvia as vozes sem saber onde estava, quem era, quem falava em volta. Aquele nome estranho. Quase uma catalepsia...? A atenção não firmava no que ouvia - herói de guerra...? Tinha fome; um cheiro estranho de urina e asseio se misturavam ao rosto daquelas pessoas olhando, apalpando, conversando baixo. Sentia um novo desfalecimento, não conseguia se mexer ou falar nenhuma palavra. Os pensamentos sumiam de repente do mesmo jeito que apareciam. Ficava olhando as pessoas de branco em volta sem saber quem eram. Onde estava? Perguntava com os olhos.

Queria se lembrar de tanta coisa, o que tinha acontecido? Passava a mão pelo rosto enquanto se via na vidraça da janela. Queria se lembrar da sua vida, qualquer coisa antes daquele hospital. Não entendia o que lhe falavam... chamava-se Sebastião...? Aquelas pessoas pareciam tão grandes em volta da cama! Só tinha forças para o olhar assustado, depois era aquela fraqueza persistindo, tomando conta, fintando.

Foram os primeiros dias. O torpor foi se abrandando, a tonteira passando até conseguir entender o que falavam a sua volta. Aprendeu a tomar sozinho a sopa diária, a se movimentar na cama, a ensaiar os primeiros passos sem a ajuda do enfermeiro.

- Teu nome é Sebastião Jerônimo Domêncio, nasceste em Muaná, no dia 24 de março de 1878. Foste ferido em combate, és um herói de guerra com medalha e honras. Faz quase um ano que estás nesta cama, inconsciente - dizia o tenente médico - quando despertaste, ainda demorou por tempo atordoado, agora estás bem.

O que sabia foi no ouvir contar pelas pessoas da brigada que o visitavam e pelo tenente médico Dalberto nos meses que ainda ficou lá estiolado. Os músculos não obedeciam, o torpor parecia lhe tirar um simples movimento qualquer. O tempo lhe roubara as lembranças. Quem o visitava contava coisas que nem imaginaria ter vivido: a vida no quartel, o embarque no vapor, o trem na Bahia, seus amigos mais próximos, todos mortos naquele ataque. As visitas foram rareando apesar da insistência do tenente médico para que os companheiros de farda tentassem fazê-lo se lembrar de alguma coisa.

Reformado com honras e soldo de cabo, quando saiu do hospital não sabia pra onde ir até lhe indicarem uma pensão no Reduto onde passou a morar num quarto dos fundos. Tomava banhos de casca de andiroba, passava o óleo que Zinhá, dona da pensão, preparava. Ficava sem fazer nada, acabrunhado, o dia todo, mais pelo que não se lembrava do que pelas cicatrizes que marcavam seu rosto até o pescoço. Lá que avezou com o espanto que provocava e com o apelido que aquela cicatriz trouxe.

Raras vezes saía da pensão onde viveu quase recluso aqueles tempos. Sua aparência causava repulsa em quem o via pela primeira vez. A cicatriz do estilhaço no rosto e as marcas da queimadura sempre eram motivo de curiosidade das pessoas, e Sabá não gostava que o olhassem daquele jeito e muito menos de falar no assunto.

Ajudava Zinhá com a água do poço, a lenha e algum serviço miúdo. Gostava de descobrir saber fazer alguma coisa não lembrada; gostava do quintal sombreado, do carinho de Zinhá tratando-o como um filho que nunca tivera. Passava os dias tentando aprender mais e mais, sentindo o corpo cada dia se fortalecer. Sempre num canto, observando calado, com um jeito de ausente que todos os hóspedes da pensão acabaram por se acostumar. Zinhá lhe dizia que ali ia lembrar tudo que tinha esquecido. Ela se esforçava em ensinar coisas como se ele fosse uma criança.

Numa tarde, quase noite, sentiu o membro enrijecer e apontar para o corpo da moça que molhava os jasmineiros no quintal vizinho ao da pensão. Ele a tomou ali mesmo aprendendo a sabedoria do corpo dela. Dotéia ensinou-o a lidar com o prazer, seus segredos de mulher mais escondidos. Foram tempos de lascívia comandando Sabá. Encontravam-se sempre no começo da noite antes dela ir trabalhar na pensão de quartos onde ganhava a vida. Até a mudança de Dotéia pra Vigia foi a mulher com quem conviveu e de quem sempre se lembrava.

Na pensão conheceu Manel da Coroa, dono de freteira, quem lhe ajudou a criar coragem e andar pelos lados de Muaná à procura de algum parente que não sabia ter. A única referência era o lugar onde nasceu, nos apontamentos sobre sua pessoa no quartel. Com Manel andou pelo interior de Muaná em muitas idas e vindas malogradas. Consultou o cartório do seu Petrônio, perguntou pelo nome do pai e da mãe aos mais antigos. Nada esclareceu. Parecia que ele nunca tinha existido. Seu modo calado foi predominando até desistir de procurar sua vida esquecida.

- No leito seco do Vaza-Barris é que tu foste encontrado quando os corpos eram recolhidos. Dois soldados se fingiam de mortos. Um desses traidores que quase desonraram nossa tropa foi quem viu que estavas vivo ainda. Vinhas sendo arrastado pelo soldado Fibrino, que levou uma carga na barriga e morreu ali mesmo sem socorro.

- Quando o Planeta atracou no porto, a cidade inteira estava esperando. Tu foste o primeiro a desembarcar, estavas muito mal, recebeste até a extrema-unção lá na Bahia, foste levado direto pro hospital, muito enfermo. Mas teu nome foi mencionado em todos os discursos. Quem recebeu a medalha com a promoção foi o soldado Alvino te representando, o mesmo que tu salvou.

Ouvia como se fosse a história de outra pessoa, nenhuma pergunta fazia. Olhava a medalha calado, sem pensamento, alheio ao esforço do tenente médico.

Entrou para a equipagem do Purus, vapor que fazia a rota até Manaus, como foguista. Quando se apresentou, o comandante lhe bateu continência com respeito, apresentou toda a tripulação e designou Rapinha e Adelmo como seus ajudantes. Foi o único momento que se sentiu de verdade um herói.

Era uma vida dura, cheia de sobressaltos, mas também de alegrias. Os bancos de areia, os troncos escondidos na lâmina d’água e a falta de lenha eram a preocupação diária de todos. Os dois ajudantes, experientes, no começo meio ressabiados, logo começaram a admirar Sabá pela maneira como eram comandados e pela simplicidade dele em perguntar o que ainda não sabia.

Sabá foi dominando o ofício como se a vida toda tivesse trabalhado ali, a roda motora girando, o sibilo do vapor nem prestava incômodo, era rigoroso com os ajudantes, tolerava suas brincadeiras com um jeito cúmplice, mas reservado.

A cada parada do Purus, ia conhecendo mais o modo de não deixar faltar lenha, o povo e os lugares. Sabia agradar a todos, conseguia fazer lenha até debaixo das chuvas de inverno, gostava de se embrenhar pelo mato, conhecer raízes, ervas, ver a serventia de tudo, foi virando um bom negociante de peles, mel, cacau, fumo e farinha.

- Teus parentes, tua família, por mais esforços que o comando da Brigada fez, não conseguiu encontrar. Durante o tempo que ficaste inconsciente, procuramos mas só quem te conhecia eram as pessoas que tu conviveu no quartel. Até uma moça que vias perto do Curro veio de visita mas afirmou que nunca tu falaste da família.

Lembrar, só lembrava de quando acordou já em cama de hospital. Ouvia contar pelo tenente médico, como puxou o soldado Alvino bem na hora que ele ia saindo do beco com a bandeira pra hastear na praça.

- Teu ferimento foi um estilhaço da bala do canhão que atingiria o soldado se não tivesse sido puxado com força pra trás. Ferido pela explosão no rosto e por uma bala perdida nas costas, o fogo queimou teus cabelos quando ficou desacordado até ser retirado, dado como morto e quase enterrado mas, por sorte, mexeste a perna e foste separado pra enfermaria.

O tenente sempre dizia que ele estar vivo era um milagre e que um dia iria lembrar-se de tudo. Esse dia quase desistira de esperar desde que voltou com Manel da Coroa do interior de Muaná. Lembrava era do sono profundo, de ouvir vozes longe, quando despertou e sentiu um gosto ruim na boca, da sede e daquela dor nas escaras formadas no quase um ano de cama. Lembrava era da falta de forças pra se levantar, da fala esquisita que ouvia, e de se olhar no espelho. Foi estranho, não sabia quem era ali refletido. A cicatriz cerzia seu rosto do lado esquerdo não deixando a barba crescer. Viu-se na palidez como se nunca tivesse existido. Lembrava de quando lhe contavam sua história... do tempo que tinha se passado, foi mais estranho ainda.

Dado como são, reformado e promovido, para ele nada disso significava, não se lembrava de ter sido soldado, nem sabia o que fazer na vida começada dali. Indicaram a pensão, levaram-no ao banco, fizeram os papéis para o soldo e mantiveram o tenente Dalberto, durante um tempo, sempre por perto dele, ensinando-o a retomar a vida. O oficial andou com Sabá por toda Belém, nos lugares possíveis de seu passado. Ninguém sabia nada de sua família, só se lembravam dele na Brigada e Sabá não demonstrava conhecer nada do que via. Nenhum logradouro, nenhuma pessoa, nada. Olhava a baía, as embarcações aportadas, o movimento no Ver-o-Peso, indiferente, vazio. Detinha-se perto do vendedor de jasmins, sentia o perfume recendendo... pensava em Dotéia, sua primeira saudade.

No trabalho de foguista do Purus, conseguido na ajuda do tenente Dalberto, conheceu a linha toda, cada trapiche, cada ponto de lenha. Gostava do serviço no calor da caldeira, de andar pelo convés, dos ajudantes, de falar com os caboclos daqueles pontos mais escondidos. Gente que lidava com a juta, talhando seringa ou tirando lenha. Na sua primeira viagem encontrou no trapiche de Óbidos um guarda-livros que tinha vindo de muito longe e ficava olhando o rio e dizendo: – é um sertão d’água esse lugar... Sabá gostou tanto daquele modo dele falar: “sertão d’água... sertão d’água... sertão d’água”...

Foi também nessa primeira viagem que conheceu Maria Pipira exibindo os seios fartos num vestido de gorgorão azul moqueando a piramutaba e servindo aos passageiros e ao comandante Fontenele, enquanto o Purus aguardava a estiva. Ofereceu de longe a cuia, chamando. Ele foi, ela gostou, chamou pros fundos. Na rede se tiveram a primeira vez, daquele dia em diante virou rabicho.

Na baía de Aramanaí, a vez primeira que viu os tapuios em muitas montarias ladear o Purus com o corpo pintado de jenipapo e urucu, ajaezado de penas, gritando ritmado. Imaginou guerra à-toa, era festa deles. Adelmo riu de Sabá enquanto, moldava a balata no formato do macaco.

Rapinha era nascido na Jaroca mas falava que tinha sido criado na Ponta do Jariúba trabalhando barro. Adelmo ria: - por isso os tamanhos pés, igual curupira... tal qual... tal qual... Rapinha respondia de pronto: - mas não estremunho quando passo perto da artista, tu, sim. Os dois passavam o dia todo trabalhando e arreliando por qualquer coisa. Sabá gostava daquela alegria.

Na ponta do Jariúba, numa das viagens, os dois filhos de Nelau e Ana Tapuia indo de sapeca na montaria sumiram das vistas. O comandante encostou e foram ajudar a procurar, Sabá e Rapinha passaram o dia e a noite remando, nunca ninguém encontrou os curumins. A mãe dizia baixinho:

- Foi Boiaçu, foi...foi...foi...

Rapinha ficou dias sério, calado como não era de seu costume. Muitas noites passou olhando pro céu estrelado, absorto como se os meninos fossem parentes. Em Sabá o sentimento era outro, talvez por não se lembrar de um pedaço grande da vida, via com naturalidade, como a mãe dos meninos, conformada. Achava que a morte vinha na vida, junto, natural, chegava nos modos, sem alvitre. Mas aprendeu nesse dia a respeitar a sina de Nelau, vivendo inconformado com o espírito dos filhos afogados.

No Pacoval, o Curuá despejava as chuvas da cabeceira, aquele inverno antes do tempo formando uma cortina nas vistas, ali Sabá conheceu como lidar com a fervura do leite da balata, o putirum festivo dos negros ressoando na mata, o batuque embaindo o corpo de quem trabalhava e ela numa dança lúbrica fez sinal e teve Sabá todas as vezes que ele lá parou. Era o lugar de que mais gostava.

Aprendeu vendo o sofrimento daquela gente nas mãos dos aviadores, as contas feitas para um lado só. Conheceu Curiboque na larga do Tapajós, moreno vindo do Curiaú, no Amapá, sempre migando tabaco, humilde, conversando manso e disposto a ajudar numa demanda de lenha. Chegou ali com a roupa do corpo, lidando com o que aparecesse. Com o tempo ficou na seringa. Em pouco já era toqueiro e aviava muitos companheiros. Sabá, a cada viagem do Purus, via o progresso dele aparecer mais e mais sem que Curiboque perdesse o jeito simples, sempre fazendo o cigarro, sorrindo. Foi com ele que Sabá mais negociou naqueles anos, entregava-lhe a farinha na troca pelas peles e aprendia cada vez mais. Curiboque viveu com a tapuia os anos que coube naquela beira, iniciou Sabá no cacau e na castanha, completava a carga, dizia ele, uma saca aqui, outra acolá.

Um dia, foi achado morto com um balaço e a cabeça esmigalhada de borduna. Ela com os filhos pra criar, nunca mais ninguém viu. No barracão nada restou e Sabá amargou o primeiro prejuízo sem as peles que tinha pra descer. Dessorado teve que começar tudo de novo.

O rebojo parecia uma escama de peixe que o luar prateava as pontas. Na proa, o pensamento o consumia, numa voragem, tentava lembrar de alguém, um rosto. Da mãe, um gesto dela que fosse, adiantava ficar perguntando até hoje onde passasse. Lembrava de Zinhá lhe esfregando óleo nas cicatrizes, sentia saudades dela, de Dotéia, da pensão; tanto tempo sem ir lá... pensava no tenente, homem bom, sempre pedindo notícias suas a Manel da Coroa. O pensamento viajava mas nunca chegava na guerra, no lugar onde nasceu. Nem depois de ter ido lá, procurando por meses e meses. Nem pai, nem mãe, aqueles olhares de cima em baixo – cunheço tu não, meu mano... Rapinha tirou Sabá dos pensamentos com a febre que finou Adelmo dois dias depois.- a vida viveu nele, mano - falou Sabá baixinho na hora do enterro no Furo do Juruti onde o Purus encostou.

Junto com o que recebia como cabo reformado, o dinheiro ganho nas viagens rendia ainda mais com os negócios feitos na tolerância do capitão. Sabá foi tendo situação de conhecimento por onde passasse o Purus, o comandante do vapor o admirava pela rapidez com que resolvia os problemas, pelo seu jeito de tratar a todos e, principalmente, pela capacidade que tinha de negociar com os ribeirinhos quando tinha que juntar turma pra tirar lenha.

Até quando ficaram sete dias parados no Xibuí, no reparo da caldeira, Sabá ficava mais tempo ajudando a fazer farinha do que à toa esperando o conserto. Ali aprendeu a remar de proa, comer turu com farinha grossa, tomar tarubá e cantar. Ali se deitava com a mulher do Nanu quase toda noite; ela vinha remando por trás do vapor para ficar em sua rede até perto de clarear.

O primeiro negócio que fez foi no Curuá. Comprou toda a farinha que tinha no arruado. Conheceu Severo, um cearense que um dia o presenteou com uma lambedeira que nunca tirava da cinta. Lucrou bem aquele dia, com a compra e com o amigo que fez. Aprendeu com ele que o balateiro era muito explorado pelos aviadores, que até a farinha que as mulheres faziam era dada como paga a eles, num preço de dar vergonha. O nordestino explicou os modos e Sabá começou a negociar a produção que encontrava. Onde passava ia limpando o que excedia o do sustento dos caboclos. Aprendeu a trocar por tabaco, sal, algum tecido e charque. Foi fazendo freguesia, pagando preço bom, ficando conhecido e respeitado como negociante.

A experiência como foguista do Purus lhe deu traquejo em lidar com a lenha. Quando o vapor encostava nos pontos de abastecimento, raramente encontrava o combinado. Os caboclos ignaros, ora vendiam ao primeiro que passasse e iam para a seringa fazer peles, ora deixavam recado pelas mulheres: que a juta deu preço e tinham ido colher fibra.

Inúmeras vezes abasteceu o Purus com a ajuda dos tripulantes, tirando a machado, desgalhando a terçado, o que fosse mais fácil cortar. Aos passageiros pedia que apanhassem sacaí, não se afastando muito. Essa vivência mostrou a ele o valor que tinha uma acha de lenha para as caldeiras, o quanto poderia render o fornecimento regular aos vapores.

Naqueles anos todos, os atrasos do Purus eram muito pequenos, fazendo com que houvesse uma preferência por suas viagens. Entre os viajantes, homens importantes no comércio da borracha, guarda-livros, caixeiros viajantes, pessoas ligadas ao comércio, às casas aviadoras, às seguradoras, gente abastada, artistas e homens do governo. Comandante Fontenele agradecia ao foguista essa regularidade, deixando que ele transportasse o que quisesse e convidando-o sempre para conhecer alguém mais ilustre que estivesse a bordo, sempre o destacando por seu feito heróico na Guerra de Canudos, como quando o apresentou para a grande artista Celina Delisses e o tenor italiano Mário Torcatto. Sabá ficou ao lado do comandante sem entender uma palavra da conversa, sorrindo sem graça. Adelmo e Rapinha riram dele, imitando seu acanhamento o resto da viagem.

Tanta gente importante conhecida no vapor não lhe eram da menor valia. Os ribeirinhos, esses sim, valiam a lenha, a farinha do seu ganho à parte, com eles sabia conversar, rir, vadiar e reaprender o que sabia desarrumado, trancado dentro, obliterado, naquele sertão d’água.

De Manaus, Sabá nunca conseguiu gostar muito, nem desembarcava com os outros, ficava sempre olhando da amurada os passageiros descerem, o comandante entonado ir pros braços de sua amásia, discretamente depois da cuia de mujangué. Cidade grande como Belém, Sabá não sabia de quê, mas tinha medo, ficava arrumando desculpas e serviço pra não descer do vapor nem para ir às casas de mancebia.

Foi com o afastamento do comandante Fontenele, por causa da idade, que Sabá resolveu deixar o Purus, seguir a vida só negociando. Escolheu ficar em Cametá, onde já vinha deixando na mão do seu Catuxo a mercadoria que trazia no Purus.

Mesmo na crise, comprava e vendia peles de borracha e balata, o único que pagava um preço mais justo por elas. Contentava em ganhar menos nas trocas que fazia; era seu jeito de negociar, ganhar pouco mas sempre. Ali ficou até o dia que, avistando com Manel da Coroa, soube da dificuldade que estavam tendo os vapores em conseguir lenha para as caldeiras. O amigo o instigava:

- Tu, meu mano, é o maió fazedô de lenha, radica no lugá certo, põe fretêra... vai... vai... vai... tu negoceia lá tumém. Tu é sabido, Sabá.

Mas o que levou Sabá a decidir mesmo, foi uma briga por à toa com seu Catuxo, pai de Mariinha que vivia embeiçada por ele, apesar do seu desinteresse. Um dia, ela falou pro pai que gostava dele, dando entender correspondida. O velho aviador e político fez gosto e foi tomar satisfação de casamento. Apesar de se conhecerem muito através dos negócios que tinham juntos, a conversa desandou, quase acabou em briga, até o vigário entrou no meio. Sabá, já vendo fracasso no comércio de beira que fazia apenas com a montaria, resolveu ir embora.

Lembrou-se da conversa com Manel e desceu costeando até decidir se radicar no braço do Pau d’Arco, uma nesga de barranco entre o Anambé e o furo do Pitinga, irisado na imensidão daquelas águas. Quando entrou a primeira vez com a montaria no igarapé, ouviu um canto de pássaro soando no denso da mata, somente aquele trinado percuciente. Tudo ali parecia ter parado para ouvi-lo, um silêncio breve, cortado pelo canto mavioso e depois tudo voltou ao igual.

O ponto da primeira compra de lenha era ali e ali foi que construiu a casa, o trapiche, plantou o roçado de mandioca, sozinho como escolheu ser, sabia de si um pedaço, um outro, recôndito sabido, incompleto pela boca dos outros. Uns quinze anos não encontrou ninguém que ao menos lhe contasse. Em nenhum arruado que andou, deixou de perguntar pelo nome do pai e da mãe.

Afanoso, comprou serra, todo tipo de ferramenta, e foi dando trabalho para os vizinhos, formando turma e freguesia. Fazia as rumas de lenha no barranco, a modo que qualquer vapor que passasse via de longe. Com pouco tempo ficou conhecido por cumprir combinados. Se a encomenda fosse tratada, era encostar na beira e carregar. Não havendo combinação, mesmo com sobrepreço, só o que estivesse sobrando negociava.

Sabá, quando tomou a beira no Pau d’Arco e começou a trabalhar ali, passava mais tempo andando em volta, procurando nos vizinhos quem quisesse trabalhar tirando lenha. Num pouco tempo ficou conhecido de todos, admiravam seu querer e o modo inquieto de ele ir fazendo as coisas. Onde ia, o que pudesse render trocava, vendia ou comprava. A canoa era sempre cheia de ramas, bilhas de mel, cupuaçu, cacho de açaí, taperebá ou o que encontrasse.

Onde chegasse alguma coisa, trazia agradando aos vizinhos. O povo do Anambé, inopinado, às vezes aparecia no Pau d’Arco. Uns armavam o muitá e ficavam na caça ao redor. Outros eram preguiçosos, engrolavam a tarefa só um meio de dia, lenhando. Os companheiros, desde a primeira hora, sempre foram Didoro, caboclo sagica, neto de cabano e pai de mais de uma dúzia de filhos, conhecedor de tudo o que era pau bom de fogo, e Cimeu, valente homem que trazia os filhos pra ajudar na talhadia, agüentando o trabalho.

Manel da Coroa foi a valia maior, desde que o conhecera na pensão no Reduto. Sozinho no mundo como Sabá, era ele que levava direto pra Didico no Ver-o-Peso tudo que se tirava dali. Mais de quatro bilhas de mel costumava levar por viagem, castanha, cacau, óleo de andiroba e alguma pele mesmo sem preço. Sabá dizia – é pouca de muita, meu mano, levava frutas tiradas no mato e a farinha que fazia com a ajuda de Dondoca do Cimeu.

O amigo trazia de Belém o que Sabá pedia: o sal, a camisa de morim feita por Zinhá lá na pensão do Reduto, a serra nova, menos a morena bonita que sempre encomendava. Manel todo ano chamava pro Círio, mas Sabá não gostava dessas coisas de reza, igreja, procissão. Dizia que pecado era correr do que viesse na vida.

- Tu encosta numa murena é lá, meu mano, pur obrigo de lei, tuma um banho de “pega mulher” da barraca da tia Merença, de véspera acha; e na procissão já tá cum ela. Mania do mano pensá que o Círio é só pra rezá, se tu num gosta, lambuza só no prufano, dizia Manel.

Sabá, raras vezes, lembrava-se do hospital, das orações que ouviu, das visitas que recebia, tinha saudades era da pensão, de Zinhá, da Dotéia, do Purus. Daquela moça de Óbidos que só ficava de longe olhando e quando ele chegava perto, ela corria. Foram quase dez anos aquele regateio dela. Na última viagem que deu, quando o Purus desatracou, ela acenou como se adivinhasse ele não voltar. Lembrava com saudades Maria Pipira com quem se deitava em Santarém. Do furo do Pacoval onde Didira se arrumava nas folhas de tucum, chamando vem... vem... vem... faltava o paxicá que Curiboque preparava quando ouvia o apito do Purus... e a conversa boa do cearense Severo.

Sabá escolheu o lugar da demanda primeira de lenha de quem navegasse rio acima e da demanda última de quem viesse rio abaixo. Valia-lhe os muitos anos como foguista do Purus, lhe valia o amigo Manel da Coroa ajudando.

O começo, um pequeno tapiri feito na beira-rio, a acendalha seca num canto e no tendal o peixe que o matapi sustentava. O tempo passava, o lugar ia tomando forma. Nos lugares ínvios Sabá abria passagens até onde identificava fazer lenha, marcava açacus, tucumãs, pracaúbas. Fazia o roçado pro manival atrás da casa começada, ao mesmo tempo que cuidava do trapiche, de ir aumentando os cômodos, arroteava o quintal, um serviço de nunca acabar. Cada vez que Manel da Coroa encostava, trazendo as encomendas de Sabá, um dia de ajuda gastava com o amigo se gabando saber trançar palha como ninguém.

Sabá era um solitário, ia construindo devagar, punha etapa em qualquer serviço, desobrigava da pressa e ia fazendo tudo com capricho. Nos seus planos de tirar lenha estava aproveitar tudo que pudesse em volta de cada pau marcado, a caça da necessidade sempre encontrada, frutas, cocos, favas, mel. Tirava palha e fibra pra tecer, resina, raiz, casca e óleos pra remédio.

O que não gostava muito era de pescar, achava um serviço desenxabido, no muito armava o matapi ou se provia de peixe encomendando a Manel uma manta de pirarucu salgado ou quando ia à Vila do Beja trazia o pescado de lá.

Conheceu Merina numa festa de São Miguel Arcanjo na Vila. Andava pelo arraial frente à igreja, quando sentiu o cheiro dela, espargindo, passando rente até sumir no meio do povo. Ficou a noite toda procurando por ela até desistir na primeira fisgada de sono. Foi só no outro dia que voltou a encontrá-la, no trapiche, quando já ia embora. Ela desviou o olhar, assustada com sua cicatriz, mas Sabá fingiu que não viu. Desamarrou a montaria e remou devagar levando o cheiro e a figura dela na lembrança.

Toda noite pensava na moça. Começou a ir à Vila, semana sim, semana não, mas nunca a procurou afora com o olhar. Remava as horas no aproveito da maré e ficava até vazar. Negociava nas baiúcas da feira, aninga, cumaru, mel e farinha. Não que precisasse, Manel da Coroa levava tudo o que produzisse, mas precisava era da desculpa pra ir à Vila.

Bastou um dia perguntar a dona Saluciana, para que todo povoado soubesse de seu interesse pela moça. Ela veio no dia da festa com o irmão que vive com uma tapuia aqui perto, mora em Belém, nunca mais apareceu, disse-lhe Saluciana, rindo porque a moça também perguntou dele e ela contou tudo, do Pau d’Arco, do foguista famoso que foi no Purus até a história de militar reformado por ferimento em combate de guerra. Os detalhes, não escasseou, contou até que ele não se lembrava de nada da família, só sabia o que ouviu dizer, do quase um ano que passou lutando contra a morte.

Única vontade que teve de não ser sozinho foi quando viu Merina. Por isso fazia muitos meses que se acostumara ir à Vila de Beja. Quando dona Saluciana lhe contou do interesse dela também, Sabá pôde até sentir o cheiro de cravo e canela recendendo por dentro como na noite em que a viu.

- Tu vai tumá ela de casamento, seu Sabá? Vai...? vai...? vai...? insistia dona Saluciana.

Ele respondeu apenas com o riso, mas por dentro achava que sim. Imaginava como encontrá-la em Belém, através de Zinhá ou do tenente Dalberto. Haveria de encontrar um dia nem que tivesse que bater de casa em casa.

O encontro dos dois se deu numa das poucas idas de Sabá a Belém. Foi visitar a dona da pensão a quem devia tanta gratidão, mas o que queria de verdade era que ela o ajudasse a encontrar a moça, cuja única coisa que sabia era ter um irmão que trabalhava no serviço telegráfico do governo no Anambé. Qual foi a sua surpresa que ao chegar à pensão, a primeira pessoa que viu foi Merina, garrida, sentada no cepo na porta da casa. Ao vê-lo correu, deitou na rede cantarolando baixinho. Era sobrinha de Zinhá e sentiu o mesmo que Sabá quando o viu de novo. Ficaram se olhando sem nada dizer, cada um mais sem graça que o outro e ao mesmo tempo cada um mais querendo que o outro. Durou até a tia aparecer na porta da cozinha em choro de alegria com os braços abertos.

- Sabá, meu filho, quanto tempo num tê vejo, estás bonito, parrudo. Conta pra tua Zinhá, o Pau d’Arco já virou um arruado?

Fez festa, abraçou e acarinhou sua barba, parecia um parente de verdade. Conversaram por muitas horas, ele sem tirar os olhos de Merina, roendo o taperebá verdoengo: ela sustentando o olhar e a tia rindo com gosto.

Na semana toda que Sabá ficou na pensão os dois só se separavam quando a madrasta de Merina mandava chamá-la e, assim mesmo, Sabá ia acompanhando e lá ficava até tarde da noite.

Foi a primeira das muitas vezes que Sabá saiu do Pau D’Arco em compromisso com Merina. O agarramento dos dois cada dia era maior para a alegria de Zinhá e conformação da madrasta, sempre reparando desconfiada os agrados que Sabá lhe trazia, por mais que gostasse do tucupi feito no Pau D’Arco, nunca dava o valor.

Seis meses passados estavam casados.





Merina


Um cheiro de cravo e canela recendia na noite espalhando sua vontade. Sabia esperar quando queria. Fingia afazeres, preparava a água na bacia com pitadas de cravo e canela, deixava no canto do quarto o dia inteiro, encorpando o cheiro. Esperava a boca da noite pra banhar e arrumava os cabelos vagarosamente até ele chegar, instigando com o cheiro e o calor do corpo as mãos grossas de Sabá, cheias de mistério, capazes de cortar mil achas de lenha no dia e, à noite, fazê-la arder até a madrugada em gozos e enlevo.

Era toda a vida que queria Merina. Sozinhos naquela beira, sem filhos, acostumaram viver isolados na curva daquele braço. Uma vez por ano visitava a madrasta na época do Círio. Uma vez por ano a madrasta vinha com a tia, que gostava de Sabá como fosse filho. Ficavam sempre a semana em receitas e picuinhas e na vontade de Zinhá em ir no Anambé, apesar da febre sempre por lá. Acabava nunca indo.

Merina não se importava mais com a história dele, até a cicatriz que a assustou uma vez passou a fazer parte da beleza que agora via. Descobria a cada dia que passava um mais bonito escondido, seu homem, gostava de falar: - meu homem.

Só achava triste ele não ter o que lembrar, por isso cuidava sempre estar satisfazendo o menor gosto de Sabá. Desde passar óleo de andiroba pelo corpo todo de manhã, antes dele sair pra tirar lenha - evitando os piuns - até levar a cuia de açaí com farinha de tapioca no mato onde estivesse lenhando.

Quando sacava a mandioca, separava uma quarta e tratava pra peneirar o cuí que ele gostava de misturar com mutuã e muita pimenta de cheiro. Às vezes, ele a surpreendia no manival e ali mesmo eles se deitavam numa touça qualquer e o atorá voltava vazio.

Quando Sabá a encontrou na casa da tia, sua madrasta não gostou de vê-la com ele, não sabia quem era, aquela cicatriz o fazia parecer um bandido, não tinha criado a enteada com estudo e prendas para qualquer um, dizia. Mas quando soube ser ele o herói com medalha que a cunhada Zinhá, muitos anos atrás, cuidou e falava tanto na pensão; que recebia soldo da Brigada Militar, mudou de opinião.

Dona Bilinha era uma senhora muito distinta, havia acabado de criar os enteados, viúva e costurando para boa freguesia, achava Merina muito nova ainda pra viver isolada, na distância dela. Tratava Sabá bem, mas não dava muita intimidade, receava um pouco aquele homem mais velho e sem uma família, um passado direito, uma religião.

Merina, nas viagens que Sabá dava a Belém para vê-la, ficava olhando pra ele, imaginando aqueles silêncios na vida futura dela, mas durava apenas o instante que as mãos lhe pegavam os seios ou passeava pelas suas coxas. Gostava do atrevimento de Sabá. Já lhe dera inteira antes do casamento, era seu homem, despudorado e acanhado ao mesmo tempo, ela gostava daquele jeito dele, direto, conhecedor dos arcanos de seu corpo, sabia tocá-la em cada parte, senti-la embevecida de prazer, queimando.

Quando perguntava por outra na vida dele - e se tivesse mulher e filhos? - Ele respondia que, nos documentos no quartel era solteiro, mas teve muitas outras quando viajava no Purus. Sem apego nenhum falava de Dotéia, Maria Pipira, Didira e Nanu, dizia.- Nenhuma tinha teu cheiro Merina, deitava só com o corpo.

Estranhava que ele não lhe perguntasse nada de sua vida, era atencioso com tudo, ouvia calado seu tempo de menina, via sorrindo ela cantar e dançar lundu, até gostava, não se importava com o par quando iam a alguma festa. Mas não demorou nada pra aprender os passos e a acompanhar, era o jeito do ciúme dele.

O que mais gostava Merina era de ir com Sabá ao Ver-o-Peso. Ali era pouco conhecido mas o tratavam com muito respeito. Quando Didico ou alguém mais antigo o distinguia e apontava, ela se sentia importante com tanta gente vindo falar com seu futuro marido.

Quando chegaram no Pau d’Arco, levados por Manel da Coroa, Merina gostou, gostou muito do que viu. A casa construída no alto do barranco com varanda na frente e um passadiço até o trapiche, no meio do limpo. Os cômodos separados nos vãos das portas por cortinas de miriti, o talho na cozinha, as achas de acapu empilhadas no canto, a bacia de banho pendurada, o oratório com a imagem de Nossa Senhora de Nazaré na sala, um luxo que sua tia ajudou Sabá arranjar. Meio de lado entre a casa e o trapiche um enorme pau d’arco ladeado de pupunheiras, biribás e açaizeiros.

Atrás uma samaumeira separava o roçado de mandioca da casa de farinha assentada em palafitas no igarapé do Pau D’Arco, ao lado contrário da casa a pilha de talhas no rasgado de barranco que dava até pra vapor encostar. Mas o que mais lhe agradou foi a Criola. Quando Merina se aproximou, ela a olhava curiosa, mexendo a cabeça devagar como se olhasse ora com um olho, ora com outro, balançando o bico bem devagar, destravando a língua:

- Muçu nucomo... muçu nucomo... muçu nucomo...

Zim se trançava nas pernas de Sabá e nem tomava conhecimento da presença dela. Demorou tempo o dia que estava sentada no trapiche com a maré cheia, os pés dentro d’água; Zim chegou de mansinho, enfiou a cabeça no seu colo e ficou ali quietinho.

Por anos agüentou a solidão daquela ponta de braço, agüentou o cozinhar pros caboclos lenheiros, o silêncio das horas durante o dia e o barulho dos bichos na mata durante a noite, ficava ouvindo a pipira e sonhando com movimento da pensão da tia no Reduto, tanta gente pra conversar tantos assuntos, vontade de dançar um lundu nas festas de Ana Cavoca, queria descansar da tagarelice igual, da Criola, do latido à-toa de Zim e do modo calado de Sabá só dando valor no serviço, pensava Merina.

Tentava adivinhar o que ele sentia quando parava sem gestos olhando a imensidão d’água como se ficasse esperando alguma coisa, sabia tristeza nele.

O meu homem ficou sendo hoje o igual ontem, igual... igual... igual... pensava. Foi se desacostumando a banhar de bacia perfumada com cravo e canela para esperá-lo, ele parecia nem ligar. O fogo dos primeiros tempos virou brasas cobertas de cinzas, avivadas só vez em quando. Merina sentia falta do toda hora como no começo, falta de filhos que Sabá queria tanto, de ir mais vezes à Vila de Beja, dalguma festa de batuque. Conformada, armava o cacuri, esperava a freteira de lenha, o mês do Círio todo ano, cada dia mais macambúzia e sozinha.

Quando vieram chamar, Sabá estava no mato derrubando um cumaru, Merina foi só com Batuco na vigilenga pelo igarapé na reponta, por entre as ventosas e maruins até onde ele adelgaçava chegando no Anambé. O folhame quase cobria a choça, uma desolação. Ela deitada no chão num tupé, o fogo apagado e o tendal vazio, as lamparinas acesas ao redor e o filho sentado no monte de palha de arumã brincando com embuás, falando baixinho como se entendesse: - sezão veio... veio... veio... Embrulhada no tupé, a tapuia foi enterrada com o tosco crucifixo que Batuco fez e a oração que Merina rezou em silêncio.

Antes de voltar ao Pau d’Arco deu um banho em Bité, dali não levando mais nada. Preocupava, de Sabá chegar e não encontrá-la. Foi o que aconteceu, encontrou o marido no fogão esquentando óleo de copaíba com o pé cortado num resvalo de machado. O marido entendeu o avexo, tratou com carinho, como o menino Bité fosse filho.

Naqueles primeiros dias, Merina cuidou do sobrinho com quinino e leite de amapá, medo da moléstia ter vindo instalada. Bité bugiava indene, gostando do chá de fava de jucá com mel aliviando a tosse. Raspava com as mãos a cuia do caribé que a tia fazia, sempre pedindo mais.
Com a presença do sobrinho, o Pau d’Arco e a vida de Merina mudaram completamente. Agora tinha com quem conversar, fora a Criola. Ensinava Bité como um filho, contava historias, parecia ter a idade dele quando iam banhar juntos. O menino encheu a vida de Merina em todos os dias.

- Bité vem passar mutamba no cabelo da tia!...

E assim foram criando o menino. A vida mudando pra Merina, mais alegre apesar do alheamento de Bité com muitas coisas do costume deles. Voltou a ter alegrias, ensinando o sobrinho lidar com talas de arumã, fazer paneiros e moquear um tamuatá. Voltou a preparar ipuruna com a ajuda de Bité, a tirar a bacia do gancho, descansando a pitada de cravo e canela para o banho e o agrado de Sabá.

Um dia apareceu Batuco mais um casal de tapuios, parentes de Bité com o jamaxim vazio. Vieram pelo mato e ali ficaram parados sem falar nada, um ao lado do outro. Batuco contou que eles moravam na mucruará, uma hora dali.

- Sabá num vai gostá, tu sabe... falou Merina pra Batuco, que logo deu pressa de ir embora. O casal ficou ali no terreiro, calado, um ao lado do outro. Nem olhar não olharam pra Bité e ele, muito curioso, queria saber quem eram, por que não falavam nada.

Quando Sabá chegou todo picado de cabas não gostou de ver os dois tapuios, mas mesmo assim mandou separar uma quarta de farinha, tabaco e um pouco de sal, deu a eles dizendo que se quisessem trabalhar, encontrassem ele e os companheiros na samaumeira do Cimeu, bem cedo, tinha serviço de lenha pra ele e na farinha pra ela.

Desse dia em diante os tapuios passaram a aparecer de quando em quando. Muitas vezes chegavam ainda escuro assustando todos. Merina tinha medo mas fazia o mesmo, uma quarta de farinha, tabaco e o sal. Bité acostumou de vê-los sempre ali, sem falar nada, um ao lado do outro, e toda vez os chamava pra trabalhar, imitando o tio. Era o povo de Bité agregando neles.





Bité


Desde então era a sombra de Sabá que lembrava quando ele chegou trazido por Merina, mirradinho, parecia um filhote de bicho qualquer, assustado, com um pixé pior que quando cortava cupiúba. Trazido pela tia pra tomar conta, criar até aparecer seu pai, irmão dela sumido na insistência de trabalhar com seringa no Xapuri, mandado avisar pelo Mauá que fazia a linha Belém-Boca do Acre e nunca encontrado.

Sorte dele, a mãe acabada na febre fazia pouco. Sorte de Sabá e Merina, viviam sozinhos naquela beira, afora a Criola, já velha demais, e o esperto do Zim, o menino trouxe alegria que faltava nas suas vidas.

Criola mal dando conta de imitar a fala de Manel da Coroa quando vinha gritando no longe.

- Tumei ancôro, meu mano. Criola repetia – tume côro memano... muçu nucomo... muçu nucomo...

Zim, esperto, ferroando com o olhar à distância, conferindo o desconfio do que ouvia antes de latir, esperto demais quando deixava ao jacamim a vigia miúda.

Com a vinda do menino Bité, mesmo calado, era a companhia que faltava a Sabá e Merina; foi crescendo e dando conta das pequenas coisas que o tio ensinava, era muito curioso, e gostava de aprender.

Criola não saía do em volta de Merina. As duas conversavam o dia inteiro na cozinha, pegadio de gente parecia Criola ter, gostava de chamar Bité por qualquer coisa:

- Crumim Bité... crumim Bité... crumim Bité... muçum nucomo... muçu nucomo... muçu nucomo...

Zim já ia virando um cachorro velho, quase cego correndo atrás de visagens pelas touceiras dos açaizeiros e pupunheiras, latindo por qualquer coisa, até com o jacamim que não saía do terreiro.

Dependesse de Zim era só guarnecer o sono na rede com o sono dele debaixo. Nem Bité, depois de quase ano chegava perto sem que Zim rosnasse contraindo os cantos da boca como se desse conta daquela brabeza, Sabá, na rede, dormia sossegado.

Bité aprendeu depressa os modos e foi de valia desde o dia que chegou. Seu pai ninguém encontrou no Acre, as notícias meio desencontradas o davam como morto, a sezão também andava por lá. O menino foi ficando com seu jeito calado aprendendo até os gestos de Sabá. Aprendeu a talhadia, a empilhar as achas no tamanho certo duma talha, a forrar o ombro com a malva pra não esfolar; aprendeu ajudar a fazer a tapagem, a negociar com Manel da Coroa, Capitão Mariozinho e quem mais parasse.

Só o curioso falava na boca de Bité, perguntava pra Merina.

- Puquê acendê lume de dia cumo no veloro da mãe? Lumia caminho de quem murre! Luminou da mãe, tia ? Puquê eles num fala, tia? Num trabaia no mato? Num vai gapuiar igual Batuco, tia?

Já sabiam suas mãos, onde firmar o remo, sabia o olhar tirar rumo pela quilha da montaria, bambolear pra tirar água como se fosse um urubu trocando o pé de apoio, igual fazia o tio. Era muito inteligente o menino e ao mesmo tempo arredio e desconfiado. Puxado da mãe, dizia Merina.

Quando o irmão trabalhou no governo, conheceu na aldeia Anambé, no Moju, o Mário Pau que tirava lenha lá e tinha uma filha com uma cunhã da aldeia. A mãe de Bité era a filha do Mário Pau que morreu afogado faz tempo.

- Coitado do mano, a mulher foi o xodó dele, gostava tanto mas não podia agüentar a parentalha dela vivendo às custas, ainda mais quando deixou o governo, dizia Merina.

Bité curioso, um dia foi atrás dos parentes agregados, seguindo de longe, se escondendo no mato até a choça, morada deles no Acaraqui, e os viu enrolar o tauari e cantar invocando Caruana. Ficou de longe assistindo à pajelança, lembrou-se daquele canto:

- Rhum... rhum... ê... rhum... rhum... ê... nhanga... nhanga... nhanga... ê... rhum... rhum... ê... rhum... ê... nhanga... nhanga... nhanga... ê... ê... ê... nhã... nhã... nhã... ê... ê... ê... o mesmo que ouvia no Anambé, lembrou-se da mãe, do xerimbabo dançando igual à avó, e da aldeia.

Os tapuios viram Bité espreitando e, calados como eram, continuaram. Com o olhar estabeleceram uma cumplicidade com o menino quando vinham ao Pau d’Arco.

Merina achou natural no começo mas, com o passar do tempo, notava que Bité ficava horas fora das vistas dela, pensava estar ele embrenhado no mato com o tio, mas um dia Sabá voltou mais cedo sem ele. Bité nunca falou aos tios que andava no mucruará com os parentes. A tia quis confirmar e um dia, depois de prover os tapuios, não viu o sobrinho. Seguiu e presenciou o aprendizado que Bité fazia com o casal Anambé. De Sabá escondeu até que ele mesmo puxou o assunto, tinha visto Bité acompanhar os tapuios, disse não desgostar que o menino aprendesse com a gente dele também. Merina ficou calada sem se conformar, imaginando um jeito de contrariar o marido.

- Tu queres ir no Círio esse ano com a tia, Bité? Perguntou Merina enquanto desamarrava o cofo, querendo tirar o menino daquela convivência. Ele balançou a cabeça que não e correu pra junto do tio no manival.

Ficou arredio os dias todos, próximo a semana da viagem, ele a evitava indo com Sabá pro mato ficando o dia todo como não era de costume fazer.

- Bité vem passar mutamba no cabelo da tia...

Ele fingia que não ouvia, desaparecia com a cabeça baixa ignorando Merina, ficava horas sem aparecer.

No dia que a tia embarcou, Manel da Coroa conversou reservado com Sabá e Merina contou que não ia sobrar ninguém no Maraçu, a sezão tomou conta entonada... febre muita... febre muita... febre muita, contou também que o Capitão Mariozinho tinha cruzado com ele e lhe dissera não ter notícias firmadas do pai do menino.

Bité, vendo os três conversando baixinho, desconfiou. A tia insistiu em levá-lo, medo da febre relatada por Manel, tentativa de afastá-lo dos tapuios. Bité saiu correndo pelo mato e só voltou quando o igarité soltava vela e fazia a curva pra entrar na baía. O tio, quando ele voltou, ralhou:

- Tume jeito, Bité. Que pavulagem é essa? Se tu num qué, tu num vai, tume jeito.

No entendimento de Sabá - que cada um é cada um - o menino também podia escolher. Não era como ele que não sabia nada do antes, parecia derriço da vida o não lembrar que já se acostumara. Não queria ver o menino do mesmo jeito, que ele aprendesse um pouco com os tapuios. Bité não tinha preguiça, não ia ficar alheado igual à gente dele.

Naquela madrugada, quase amanhecendo, Bité acordou o tio, assustado com o barulho no terreiro e com o rosnar sonolento de Zim. Pelo fusco do dia, aquele zumbido de possança da taoca ia enervando pelos ouvidos e pelando o manival. Até a Criola gritava no puleiro:

- Mitiga sámerinda... mitiga sámerinda... muçu nucomo... muçu nucomo...

Junto, o acesume do japu na pupunheira irritava. Zim latia... latia... chamando Bité, de baladeira na mão, meio sonolento, não acertava nunca o japu.

Era o dia começando no café ralo que Sabá fazia, enervado com as taocas e com a Criola que desassossegava com a falta de Merina, falava destrambelhada:

- Muçu nucomo... muçu nucomo... muçu nucomo... pexe mutu... pexe mutu... pexe mutu...

Naqueles dias, Sabá ficava sem a mulher e os companheiros. Iam todos para a festa do Círio. Ele aproveitava pra limpar mais um pedaço pro manival novo que nunca achava tempo de fazer; esperava o Guajará de vinda e arrumava pequenas coisas, modo não se afastar muito.

Já tinha passado Cimeu e Didoro com as famílias, Cleodon do Marauatá, Didico do Urubueua, até Saluciana e o povo da Vila do Beja, dava notícia Bité, cada um que passava, ele corria pra contar.

Mandava o menino voltar pro trapiche, contasse depois quem passava.

- Bité, tu fica! Tu cuida do Zim e da Criola, só quando tu vê o Guajará vem chamá.





Guajará do Xapuri


- Quando embarquei, não sei se por causa da pressa ou da ressaca que acordou comigo naquela manhã, nem notei que ela e o marido embarcaram também. Só percebi quando o vapor parou em Santo Antônio para se abastecer de lenha e, como de hábito, desci para espairecer, pude vê-la na segunda janela da primeira classe. Olhou-me de relance, sem firmar as vistas. Meu coração bateu mais depressa que o normal. Mas acabei tenso quando vi o marido sobrepondo o rosto na janela. Ele sim, me olhou firme dos pés a cabeça como se soubesse de tudo, o que era impossível, a menos que ela tivesse contado e me apontado na rua, o que era pouco provável. Mas, embarquei no primeiro apito como que fugindo daquele olhar que me deixou intrigado. Só o conhecia de vista, ouvira dizer que era de Manaus, filho de políticos influentes e muito ricos.

- O resto da viagem passei no convés da segunda classe sem coragem de andar pelo navio, medo de encontrá-la, receio de vê-la de perto. Talvez receasse também o olhar do marido perscrutando meus pensamentos.

- Foi numa viagem como aquela, num escurecer como aquele, quase um ano atrás, com o vento assobiando nos meus ouvidos, fui lembrando... aquela carta – acabou como a fumaça de um cigarro, esvaiu... Enquanto assimilava aquelas palavras, observava a fumaça do cigarro desenhando o ar que o sol, pela fresta, riscava em cima da cama do meu quarto de estudante e poeta. Fiquei ali fumando um cigarro atrás do outro até a decisão de querer ouvir de sua boca, olhando nos seus olhos, que o amor se esvaíra. Como? E a distância produzindo aquela saudade louca de um amor sementado cada dia, dia a dia, nas suas cartas, nas minhas cartas e poemas. Como? Menos de um mês, falava do seu sofrimento, da minha ausência, contava os dias que faltavam para o fim do ano. Como? Fumaça se esvaindo, não podia acreditar naquilo.

- Minha vida parecia que começava daquele ponto, uma angústia se instalava por dentro, roendo. Na viagem toda não falei uma palavra com ninguém. De dia, ia ao convés e o frio da noite me escondia. Um cigarro atrás do outro, os pensamentos seguidos daquela frase: - acabou como fumaça de cigarro, esvaiu... O menino vinha oferecendo a laranja – tu não fala, é mudo... aceita... eu balançava a cabeça que não, ele insistia até a mãe chamá-lo: - pára de incomodar o moço, menino!

- Por que tinha que encontrá-la assim, ainda mais no vapor, uma viagem igual a de um ano atrás, indo em busca de uma explicação para aquela carta? Era como se cortasse de novo por cima da cicatriz. Ouvia o apito ressoando na lembrança, quando me dei conta de que havia bem no fundo uma dor restada sem lenimento. Aquele ano todo tentando encontrá-la para ouvir de seus olhos as palavras vagas daquela carta. Quantos sonetos enviados aos jornais na esperança de que eles os publicassem e ela os lesse. Agora, um lance de escada e o marido apenas nos separava... não mais sua família inteira, não mais o silêncio de Eleonor se interpondo entre nós. Agora, nem que fosse um derradeiro adeus ela me daria, uma palavra muda no olhar que fosse.

- Quando abri a porta, o marido dormia recostado com a cabeça em seu ombro. Ela olhava, com ternura, para a criança que lhe tinha o seio direito e sorria. A beleza que vi continha uma tristeza que latejava, sem dor, dentro de mim. Um vazio encheu minhas lembranças. Voltei sem que fosse visto e deixei as palavras daquela carta se esvaírem como fumaça, deixei que o amor acabasse ali, meu último verso, o gesto verdadeiro de um amor terminando. Fumei um cigarro rodeado de imensidão e silêncio, olhei as estrelas, o luar prateando as águas e, da amurada, joguei-me para a morte.





Maria Isabel


Quase não deu conta de disfarçar, era ele! O sangue circulou mais rápido pelo seu corpo. Miguel pareceu perceber alguma coisa; olhou pela janela demoradamente como se soubesse tudo. Duraram uma eternidade aqueles momentos. Os olhos de Maria Isabel se encheram de lágrimas, com custo controlou para não derramá-las. Mas o pensamento não controlou, as lembranças invadiram o momento. Sempre tivera medo de vê-lo novamente; medo do que estava sentindo agora. Sabê-lo tão perto era como se o tempo não tivesse passado e a vontade era correr para seus braços.

Lembrava do dia em que ele aceitara seu noivado, naquele encontro cheio de tristeza e promessas feitas em silêncio; e lhe prometeu tanto...

Encontraram-se escondidos um dia após o casamento, enquanto Miguel cuidava dos preparativos da viagem para Manaus. Tiveram-se atrás da capela abandonada e ela não sentiu nenhuma vergonha quando os surpreenderam. A cidade toda soube, menos o marido que a família cuidou esconder.

O pai no dia seguinte solicitou transferência para a Matriz da casa aviadora em Belém. A mãe, até a mudança, evitava deixar as outras filhas sair à rua, envergonhada, mas ao mesmo tempo aliviada pelo genro não desconfiar de nada. Acreditava, com o casamento, ter separado definitivamente a filha daquele rapaz sem futuro. Mas Maria Isabel era obcecada por Zequiel e ele por ela.

As cartas que trocaram com a ajuda de Eleonor, o contar dos dias que os separavam do fim do ano quando combinaram, se veriam; e de repente a gravidez. Foi como se lhe dilacerassem, mas logo o corpo foi percebendo uma vida nascendo dele; juntando os pedaços, resolveu escrever pela última vez e nunca mais vê-lo. Pediu a Eleonor devolver qualquer carta que chegasse, mas nenhuma houve mais. Pouco tempo se passou, ele já a estava procurando por toda Manaus.

Para ela foi difícil, mas a mãe tinha razão: o melhor era esquecer tudo e nunca mais vê-lo. Mas doía sabê-lo desesperado, ficando horas em frente à casa de Eleonor esperando um encontro; depois, em Santarém, rondando a casa da família, perguntando por ela aos empregados, provocando a antecipação da mudança deles para Belém.

- Meu deus! Encontrá-lo por acaso depois de tanto tempo? Pensava, enquanto o marido sonolento encostava a cabeça no seu ombro. Queria não sentir nada naquela hora, só tê-lo na lembrança, sem saudades como se aquela parte da sua vida estivesse morta ou esquecida no tempo.

Quando as lágrimas lhe encheram de novo os olhos, o choro da filha procurando seu seio lhe devolveu o pensamento à realidade. Percebeu a noite tingindo a margem, o marido dormindo insciente àquelas marcas que por um momento sangraram doridas e caladas. Enxugou a única lágrima que caiu olhando com ternura a filha que amamentava. E sorriu.





O enterro


Dali nunca saíra, essa era a primeira vez, com o tio naquele estado, um aranhol d’água depois da curva, conhecido de cabeça baixa, remando, rumando sabia lá pra onde. Sabá calou, quietou seco, sentado na cadeira com o couro do assento comido pelo tempo, vazando um escorrido, o remo avivando os calos das mãos do menino, o destempero vigorando na pressa de remar, naquele mais de meio dia sem cruzar ninguém. Onde estava o Guajará? Onde ficava o Curupaçu? Onde chegar com a febre do tio comendo pela ferida da perna cingida com laços de cipó.

Na cabeça de Bité, os pensamentos misturavam-se desde que o vira chegar arrastando a perna picada, pedindo entrecasca moída de trapiá com sal e água pra beber e passar na ferida. - Foi surucucu Bité? – Tu conhece trapiá Bité?... perguntava Sabá. O menino balançou a cabeça, carregando o tio pra montaria sem um lenitivo, um chá. Sabá pedia levá-lo para recurso.

- Tu pega a montaria... não cabe deitado? Traz a cadeira, me amarra nela... e ela na canoa... o chapéu menino... rema, rema depressa, rema pro Curupaçu, Cirino tem remédio lá.

Remando de contra, na maré enchendo, remando sem conhecer rumo. O tio quieto, desfalecido, os calos queimando as mãos, era só aquela imensidão d’água... a noite já querendo rodear o dia e nada do furo do Cirino... maré contra, água puxando pra trás, o tio quieto.

À noite, pensava o menino, uma luz hei de ver, seja onde for, encosto lá. A noite veio e nenhuma luz apontou. Era a imensidão, o breu dominando. Resolveu parar na margem, dar pelo menos água ao tio. Quando aproximou a cuia, pareceu que ele já tinha morrido fazia muito. O que levava, maré contra, era um corpo amarrado, sem vida na cadeira.

Nessa hora deu desespero. Sozinho, tirando água da montaria sem saber pra onde remar, a quanto tempo estava do furo do Cirino, qual canal? Enterrava o tio ou não? Resolveu esperar a preamar. O medo foi tomando conta de Bité, medo do lugar, daquele barulho de bicho se coçando na raiz da paxiúba, da jacina batendo asas rente ao rosto e o medo maior de nunca conseguir chegar a lugar nenhum.

De cócoras, no barranco, com a montaria presa na raiz, de vez em quando via o tio mexer com o balanço da marola, assustava. Pensava em jogá-lo na água, queria voltar, mas não sabia voltar. Aquele céu enorme cheio de estrelas, o rio sustinha a canoa entalhada pelas próprias mãos do morto sentado, solene como se percorresse seus domínios pela última vez. Ao menino restava, sem entender direito, aquelas últimas horas, a falta de rumo, a febre de Sabá. Foi quando viu uma luz piscar. Marcou o lugar e remou o mais depressa que pôde.

Quanto mais remava, mais parecia que a luz ia distanciando. Deduziu ser o Guajará ou outro barco qualquer. Quando deu fé estava voltando. Avistou o pau d’arco florido na curva, brilhando ao luar. Voltou pra casa e resolveu soltar a montaria para que o tio achasse sozinho onde chegar. Era como se o enterrasse; aquele ser tão d’água, naquele sertão d’água, lugar de nascer, de viver e de morrer, como ele mesmo dizia. Fez uma cruz de ramas de mandioca imitando o crucifixo que vira nas mãos da mãe quando foi enterrada, enfiou por entre as cordas que amarravam Sabá na cadeira, acendeu uma lamparina dentro da canoa, outra dentro da cuia que soltou na água para abrir os caminhos, em seguida cortou os punhos da rede do tio sob o olhar triste de Zim que rosnava baixinho como se entendesse tudo que se passava ali.

Com a rede transformada em mortalha, cobriu os ombros do morto, desamarrou a canoa que foi rodando devagar com o repuxo da maré vazando. Acendeu mais uma lamparina dentro de outra cuia, soltou atrás da urna-montaria que rodopiava, pra fechar os caminhos... a canoa ia de bubuia, bem devagar.

Ficaram o menino e o cachorro no barranco, naquela beira, sem lágrimas, seguindo até onde a vista viu, na imensidão, as três pequenas chamas acompanhando Sabá, sentado solene com sua mortalha embrulhando o corpo meio curvado, soberano na cadeira que a montaria harmonizava, ao girar, com o silêncio que se formava seguindo o cortejo.





Porto do Sal


O Porto do Sal estava diferente naquela manhã, um ajuntamento de gente em volta de Manel da Coroa que contava o que viu, cruzando rente à quilha do Coroa de Prata, na madrugada quando passava pelo furo do Cirino. Em volta todos, em silêncio, prestavam atenção na descrição que ele fazia: muitos pontos alumiados dentro d’água, guarnecendo a montaria que conduzia a visagem e rodava no meio da luz, rodava rápido com a vela que saía do próprio corpo, enfunada de mil ventos. Um chapéu grande tampava o rosto esverdeado e um manto a vestia toda. A luz era tanta que turvava a vista. Ele nunca vira nada igual na vida toda, navegando na baía, nem nas duas viagens que fez pra Manaus.

Em volta juntavam carregadores, encarregados, e os passageiros do gaiola São Gabriel que acabara de atracar. Muitos passageiros afirmavam ter visto de longe a canoa com alguém remando com o manto de luz sobre as águas, um ente muito alto parecendo gente do estrangeiro. Um menino agarrado nas pernas da mãe acrescentou:

- Cuspia fogo toda hora, cuspia... cuspia... cuspia...

Outro passageiro, aproveitando o que já ouvira:

- Também vi o fogo, cada cuspida acendia uma luz na água.

Todas as embarcações que aportaram ali, naquela manhã, davam notícias daquela visagem enorme bordejando, ora de um lado, ora de outro, muito veloz, espalhando bolas de fogo que não se apagavam na água. Uns falavam num grito rouco que ela fazia ao expelir o fogo pela boca.

Logo chegaram notícias de que a mesma visão foi vista por muita gente que chegou ao Ver-o-Peso. Ela quase pegou Zé Calendário. Por lá a confusão era até maior. Falavam até que não era uma só, e sim muitas, uma tribo inteira e que iriam atacar Belém.

No Labrador o movimento pegou seu Duca desprevenido, nunca tinha vendido tanto vinho quinado e aguardente. Os carregadores se misturavam com os passageiros desembarcados das gaiolas, bebendo e ouvindo o relato de quem tinha visto a visagem. Num canto, o pescador contava que ela veio pra cima da vigilenga, jogando bolas de fogo e num pouco tempo sumiu no breu largando fumaça. Noutro canto, o passageiro falava dela ziguezagueando ora de proa, ora de popa, fazendo ronco de esturro de onça.

Raimundico descarregava, no Ararirá de Maués, peles de borracha e castanha quando viu o Capitão mandar chamar o sargento Ozias. Os dois ficaram muito tempo conversando na cabine. Alguma coisa estava de verdade acontecendo, deduziu o carregador assombrado com tudo que ouviu contar e vendo o brigadiano sair com o comandante. Os dois gesticulando muito, examinando o casco do Ararirá, chamando o imediato do outro vapor e seguindo os três para a proa. O que queria era logo terminar a tarefa e sair dali, seu medo do assombrado era sabido por todos. Morava no Combu, não queria saber de atravessar fora de hora, ainda mais na minguante que punha o escuro na noite.

Quando lhe perguntaram se tinha ouvido o que Manel da Coroa contou, fizeram-no com muito respeito. Raimundico era um carregador muito conhecido no Porto do Sal, pela força que tinha retida nos braços, acostumados a descarregar toneladas num só dia, famoso também por não tolerar nenhum desaforo, destemido em brigas e confusões. Mas, quando o assunto era o sobrenatural, ele nem ficava perto, tinha verdadeiro pavor.

Era o que sentia naquela hora, desamarrando a montaria, depois do gole de cachaça com quinado tomado às pressas no Labrador, um verdadeiro pavor. De tão afobado, quando viu o corpo de bubuia na entrada do furo, escorregou o pé de apoio, ao mesmo tempo que sentiu a dor no peito e a falta de ar, chamou por todos os santos de sua devoção, perdendo as forças, caindo sem conseguir ao menos gritar.

Foi encontrado com os olhos bem abertos, morto de susto, dentro da canoa enganchada numa raiz na saída do furo.





Ver-o-Peso


No Ver-o-Peso, contava Zé Calendário pra Norato:

- Se tu visse, meu mano...! foi na vazante, tumei susto. A montaria parou de proa pedindo peagem, ali... ali... ali... bem de testa. Uma luz forte alumiava a visagem vinda de dentro d’água. Dei um grito: Senhora de Nazaré, valei-me! Soltei vela, virei leme e olhei pro contrário, rezando até atracar.

- Mano, tu tá cum pavulagem.

Do lado, passando, Filó ouviu pelo meio a conversa e parou pra perguntar o que era. Quando contaram, ela ficou muito séria, e disse ter ouvido o mesmo caso na boca de Manel da Coroa que parava no Porto do Sal.

- Na costa um manto vermelho, vinha de bubuia, rudeado de luz, num foi, mana? Falando pra colega que ia junto.

Norato puxou o beiço da rede onde Chicão cochilava, perguntando:

- Tu também viu? Conta o que tu viu.

Chicão relatou que um vulto de capa numa montaria batendo casco, eristando o murumuru, na dobra do Urubueua; pensou que era um caboclo panhando cacho, só olhou de relance.

Tia Merença ensinava ao garapeiro o banho de casca de taperebá maduro, casca de cajuaçu e jupindá, mas a atenção mesmo estava na confusão que via formar. Os carregadores rareando, e aquele um tanto de gente em volta do Zé Calendário:

- Tu deixa descansar na água fresca depois banha, instruía olhando para o lado contrario ao do freguês, curiosa, enxergando a filha no meio daquela multidão.

- Tume de conta mano, pediu ao vizinho. E foi saber o que era que estava acontecendo. Num segundo já gritava espalhando em roda as pessoas: - tumém vi esse um... saindo dali... e apontou o necrotério – rubou a canoa do Calixto da Donana, axi!

- Tá variando, mea tia? - gritou alguém.

O tumulto se formou. A partir daquele momento, todos no Ver-o-Peso já tinham visto a visagem, para cada um o ser era de um jeito. Havia quem dissesse que estava vestido com um manto de luz, outros que se olhasse firme pra ela ficava cego; uns falavam que era envolta numa colcha de mururés que soltavam luz. Falavam de ela sair pelas ruas, à noite, igual ao boto seduzindo as mulheres.

- Tranca a tua, Almino - gritou alguém.

Havia os que a tinham ouvido gemer igual ao urutaí; os que viram a canoa ser puxada por dois botos tocados na muxinga. Uns falavam mais de uma, eram como uma tribo.

- Mea tia nhá Merança, tumei... tumei... tumei... e nada de cortá, dizia o freguês.

- Manezim da Tatuoca tumém viu, mea tia, falava Dimo, vizinho de barraca.

- Tu dêxa de lesera, aquele mano! e respondendo ao freguês: - vai cortá sim, tuma mais tudo dia que corta - e voltando a discutir com o vizinho: - só vê o que já foi visto. É leso igual tu.

- Mea tia Merança, agora deu pra querê ofendê até os culega, tu parece urubu cuíca... axi!

Merença era conhecida como puçangueira por todos, difícil alguém que nunca tivesse encostado na barraca dela no Ver-o-Peso atrás de um lenitivo, uma meizinha, um chá que fosse. Ao mesmo tempo, era a mais incrédula. Essa história de visagem, achava, era alguma tapeação. Fosse um ente, ela saberia, era acostumada a lidar com os profundos, curar com elementos, saberes, não só com plantas, raízes e ervas.

Filó era única filha e continuava nos modos da mãe já derreada pelos anos. Tamanha mulher nova, bonita demais! Mundiava qualquer um que gostasse, era só firmar o querer. Onde passasse, ninguém lhe tirava o olho. Juntava com a fama da mãe a boniteza, e mantinha o tenente Alvino sempre querendo situação. Mas o querer dela era outro e queria do jeito que ele quisesse: era Ranulfo, o jornalista da Província. Queria de longe, nunca se aproximara dele; só tinha visto umas vezes entrando no prédio do jornal, mas o dia que pudesse chegar perto, ele ia querê-la, tinha certeza.

Filó aparentava também não acreditar. Aquela confusão no Ver-o-Peso, logo de manhã lhe dava um pouco de medo, arrepiava. Mas gostava do movimento, era o que ela mais gostava. Quem sabe o jornalista não aparecia lá?





Folha do Norte


Na Folha do Norte, o repórter tentava convencer o editor que a matéria era boa. Dizia ter visto gente da Província entrevistando o ribeirinho que chegou mais perto da visagem. Contava também já tê-lo entrevistado, compensava até um fotógrafo bater uma chapa, dava primeira página, era certo que dava.

Seu Juvenal pigarreava sem tirar os olhos dos papéis que lia e respondia sem nem olhar Cheiro Verde:

- Tu achas que podemos, nas vésperas do Círio, perder tempo com uma notícia dessas? Se oriente, corre atrás de alguma coisa de proveito.

Cheiro Verde andava pela redação mostrando pra todos a matéria já pronta, com o título “ VISAGEM ATORMENTA OS FIÉIS”. No artigo descrevia três aparições, entrevistava Manel do Coroa de Prata, o Papo de Anjo do vapor Guarani e o Nereu da freteira Confiança. Para Cheiro Verde era a melhor reportagem que tinha feito na vida, melhor chamada que as do famoso Ranulfo da Província, com ela esperava reconhecimento, promoção.

Era do jornal todo o mais dedicado nos afazeres, com seu terno surrado de brim, o chapéu de palhinha sempre levado nas mãos; não sabia o porquê do tratamento que sempre lhe dava seu Juvenal. Nos anos, nunca o tratava bem, era sempre com aquele desdém como se também ele não tivesse origem humilde. Não se importava com o apelido colocado pelos colegas, ficava - isso sim- orgulhoso. Tinha sido sua melhor matéria para o jornal, a fuga de Cheiro Verde, decisiva para a polícia encontrar o bandido; foi só ler o que escreveu sobre a família dele para prendê-lo no Marco da Légua, onde estava escondido. Todos o elogiaram no jornal, menos seu Juvenal que, daquele dia em diante, só lhe dava coisas sem importância para fazer.





A Província do Pará


- Primeira página, seu Anísio, ordens diretas do Dr. Artur, mande parar tudo. Ele quer chapa, entrevistas... põe quantos precisar nisso. Mande atrás do Ranulfo, quer uma chamada dele na primeira página.

- E o Círio? O senhor sabe que vai dar problema com a direção da festa. Seu Armando não vai entender.

- Problema do Dr. Artur. Acha logo o Ranulfo, manda avisar Tilipa no Ver-o-Peso; ele que fique atento por lá. Põe alguém no Porto do Sal.

O dia começava agitado, Anísio discordava das ordens recebidas. Ouviu, ao sair de casa, os boatos que achava até um assunto interessante, mas, primeira página? Na véspera do Círio, ainda chamar Ranulfo... pra ele era muita falta de consideração com a festa, com ele. Lua de mel, imagine juntar com aquela zinha da pensão de quartos e pegar licença pra lua de mel como se fosse casamento... esse Dr. Artur só dava valor a quem não prestava, ia pensando.

A manchete agradou a todos na redação, menos a Anísio que lia a notícia sem entusiasmo.

VISAGEM APARECE
NA BAÍA DE GUAJARÁ

“Continua o grande mistério da visagem que apareceu, na madrugada de ontem, para inúmeros barqueiros que chegaram a Belém para o Círio de Nazaré, atravessando a baía, vindos de todos os cantos do Estado.

Esse mistério surpreende a todos. A cidade viveu momentos de polvorosa. No Ver-o-Peso, Porto do Sal, centenas de pessoas confirmam ter visto o ser estranho soltando bolas de fogo pela boca que ficam boiando em volta da canoa, formando uma colcha de luz.

Alguns passageiros, vindos de Mosqueiro e Canuari, no Taça de Ouro, ouviram sons roucos, e barulho de mato quando passaram pelo Tapanã e a viram entrando no furo, urrando como onça, desgalhando a margem.

Em entrevista a este repórter, o comandante do vapor Ararirá de Maués, sr. Antônio Passos, confirma ter visto a montaria rodeada de pequenas luzes com um vulto muito grande, navegando rápido, ora a bombordo, ora a estibordo. Os passageiros, que também o viram, puseram-se a rezar até o desaparecimento completo do vulto.

Entrevistamos também um ribeirinho, mais conhecido no porto do Ver-o-Peso como Zé Calendário, que nos informou ter encontrado a visagem no clarear do dia, próximo ao Furo do Peuá. Viu-a num relance e esperou ser atacado, mas abriu vela e rezou para Nossa Senhora de Nazaré, que o protegeu.

O assunto domina a conversa nas ruas, estações, portos e no comércio da cidade onde o movimento é grande, nesse início da quadra nazarena.

O movimento de embarcações que chegam nos portos de Belém é o maior já registrado em toda a história do Círio de Nazaré. Aportaram ontem pela manhã o Antonina de Cajary, o Rio Araguaia do Tocantins, o Claudonina do Guamá e o Rio Xingu do Xingu, fora dezenas de embarcações de menor porte. São esperados, ainda para esta tarde, o Barão de Mauá, o Fé em Deus de Cametá e o navio americano Millaryd que traz a bordo o poeta Camargo Neto e sua família, de regresso à terra natal, a tempo de participar dos festejos do Círio de Nazaré”.

Anísio nem terminou de ler, Tilipa entrou na sala esbaforido: - apareceu um morto no Porto do Sal, foi a visagem, todo mundo está indo pra lá. O caso é sério seu Anísio.





Ilha de Cotijuba


Nazaré, encostada no barranco, na cabeça da praia, deixava tudo que Antônio queria, fazia tudo que ele pedia, menos atrás, dizia, porque dói... dói... dói... Dali ela controlava a chegada de Idelmar. Dos cinco filhos que tinha, bem uns três o marido nem desconfiava que eram de Antônio, seu compadre.

No devaneio da hora, depois de gozos e gemidos, Nazaré abriu os olhos e viu como se já avançando pela areia aquela visão assustadora, tremendo o corpo, contorcendo e espumando pela boca, os olhos estatelados, esforçando um grito.

Nazaré quedou com o amante, ainda dentro de si, fez um ruído estranho como fosse um grito e desmaiou. Antônio se virou, pensando ser o compadre, mas quando viu a visagem, saiu correndo, puxando as calças, nem se lembrando de Nazaré. Aturdido, chegou no embarcadouro falando da visão.

Logo a praia estava cheia de gente, e o que encontraram, foi só a mulher desmaiada e seminua. – Foi boto que tumô ela, axi! - dizia um. – Tu viu, Antônio? perguntava outro. Antônio respondia ter visto uma visagem que não tinha nada com boto: ela era enorme, vinha dentro duma montaria que bubuiava até na areia da praia. Tinha um manto cobrindo e uma cruz atravessada no peito, urrava e espumava a boca assim... assim... assim...

A notícia se espalhou pela ilha toda:

- Nessa hora do dia, quem tumou ela foi argum bicho do mato, vivinho... vivinho... vivinho..., dizia o ajudante, calafetando o barco do seu Pereira.

- Tu não vê mesmo, Batela, parece o Idelmar. A mana s’tava era reinando com o cumpadre dela, opinou o calafate.

Novo ajuntamento de gente no trapiche, com a chegada do gaiola Esperança. A notícia da visagem assombrando na baía, salvou a reputação de Nazaré antes do marido chegar.

No jirau, espalhando o pescado tirado da camboa, Nazaré rezava no medo do marido descobrir tudo, quando vieram contar, para seu alivio, as notícias da visagem que aparecia até em Belém. Nazaré passou o resto do dia salgando peixe, calada em seus querer.





Estado do Pará


Alegava João Merino que não podiam ficar de fora dos acontecimentos. Se fosse necessário uma ordem, que ela fosse conseguida o mais rápido possível. Ora se visse, o mais novo e moderno jornal ficar de fora de fatos tão contundentes. Envolvia até o comandante do navio americano Millaryd que já deu até entrevista na Província.

- Mas temos que respeitar a festa de Nazaré. Imagine um assunto desses na véspera do Círio. Nem a diretoria da festa, nem dom Francisco iriam entender dar uma cobertura maior a esse assunto, argumentava Tibúrcio Maia, jornalista famoso, um dos fundadores do jornal e membro da diretoria da festa do ano anterior, portanto conhecedor do zelo do bispo quanto à quadra nazarena.

João Merino achava que aquelas notícias eram importantes demais para não estar na primeira página do jornal. Na cidade, só se falava no assunto, a Intendência estava se mobilizando; ouvira o cunhado falar que iriam convocar a Brigada e a Capitania, a mando do governador que chamou o intendente às pressas no palácio. Até que já estavam preparando duas alvarengas com uma tripulação fortemente armada para vigiar a baía.

Somente os dois falavam na reunião, ninguém chegava a nenhum acordo, mas a notícia da morte do carregador no Porto do Sal fez vigorar o pensamento de João Merino que, como se ignorasse o do colega importante, tomou a decisão.

Foi um corre-corre na redação e o jornal saiu com o assunto na primeira página.

MORTO NO PORTO DO SAL

“Foi encontrado morto sobre sua canoa o carregador, morador da ilha do Combu, Sr. Raimundo de Souza. Seu corpo deu entrada no necrotério público onde está sendo examinado. Não se sabe qual a causa da morte. Populares garantem que o carregador foi atacado por um ser estranho que atormenta, desde ontem, quem navega pela Baía de Guajará.

Conforme relato de pelo menos quatro pessoas no Porto do Sal que avistaram a tal visagem, trata-se de um ente fantasmagórico, remando uma canoa e soltando bolas de fogo pela boca.
No Ver-o-Peso, onde já aconteceu um tumulto esta manhã, muitos passageiros, barqueiros e freteiros afirmam ter visto o mesmo, mas perguntados, cada um tem uma descrição diferente para o estranho navegador. Há quem diga ser mais de um, atribuindo a esses seres poderes de navegar com muita rapidez.

As autoridades já foram avisadas e prometem providências imediatas. O desembargador- chefe de polícia não pôde falar ao Estado do Pará sobre o assunto, mas seus auxiliares afirmaram que o caso estava sendo tratado com prioridade.

Na intendência, obtivemos informações sobre uma reunião que acontecerá ainda hoje e para a qual foram convocadas diversas autoridades, a pedido do bispo, para descobrir a origem desses boatos que, sem dúvida nenhuma, pode atrapalhar os festejos da quadra nazarena.

Mais detalhes sobre esta reunião e todas as providências que serão tomadas pelo governo, leia em nossa edição de amanhã.”





Na Intendência


A providência tinha que ser imediata, pedia o intendente. O governador o chamara ao palácio, em reunião com o bispo, para que se tomasse todas as medidas para acabar com aqueles boatos.

Sentados a sua frente o desembargador-chefe de polícia Dr. Otávio, o tenente Felópio da capitania, o major Eustáquio da brigada, o tenente Silveira do corpo de bombeiros e o Dr. Batista, presidente do conselho municipal. Ouviam o pedido do intendente para que se policiassem os locais de maior concentração popular: feiras, portos, estações e até no arraial nazareno. Haviam combinado junto ao bispo e ao governador que seriam tomadas essas providências, além de formar uma patrulha de duas alvarengas, armadas para patrulhamento da baía. O bispado, por sua vez, iria enviar um representante aos jornais pedindo para tirar o assunto das primeiras páginas. A recomendação era de que evitassem o tumulto, principalmente nos logradouros.

Queria o intendente que fosse apurado com muito rigor o motivo da morte do carregador do Porto do Sal, para isso, que se destacasse alguém para ir ao necrotério acompanhar o caso de perto, e que não divulgasse a causa da morte sem que ele soubesse primeiro. Queria evitar a todo custo que os jornais fizessem qualquer alarde em suas edições do dia seguinte. Chegou aos ouvidos do governador que até o comandante do navio americano que aportou esta manhã tinha visto a tal visagem. Era necessário falar com ele antes que qualquer repórter o fizesse.

- Lembrem-se, dizia o intendente, não podemos aceitar que uma crendice dessas envolva o navio americano e muito menos que cause qualquer problema em nossa maior festa religiosa.





Ver-o-Peso


- Pruquê tu duvida, meu mano? A meuã alevantú no meo do piri e tumbô arremetida, retinindo onça. A vigilenga pendeu e jugô tumano a cueira, a meuã sumiu no perau, mea santa, axi!

Contava Zé Panema para o vendedor de peixe. Os dois encharcados de cauim como era costume quando se encontravam. O vendedor ria, punha dúvida no contar do amigo, persignava-se, irritando Zé Panema que sentado levantou, deu um cambaleio derrubando um carregador com o alguidar de tucupi. O barulho ingente dele quebrando no chão chamou a atenção de todos e assustou quem estava por perto. Em minutos a multidão estava formada, ouvindo-o insistir no que contava.

- Tu bebeu cum ela, Zé Panema? Gritaram da multidão.

- Tu prenhô ela, Zé Panema?

- Chama tia Merença pra benzê, leva raiz de pajamarioba com casca de sucuba, senão vai nascê um Paneminha assombrado, axi! E a multidão ria em meio à balbúrdia.

- Tu tumô na poronga, Zé Panema?

Amesendados nas imediações do necrotério, um pelotão da brigada, comandado pelo tenente Alvino, fazia prontidão desde aquela manhã. Ao ouvir o barulho e a confusão, correram de pronto, dispersando a multidão, prendendo os dois bêbados que discutiam os prejuízos com o dono da mercadoria.

Naquela antevéspera do Círio, a tarde estava mais quente que o normal. A agitação da manhã havia acabado, tudo indicava que ia continuar assim, calmo.

Mas estava enganado o tenente. Naquele momento, o grito de Filó encheu o ar mormacento da tarde, o ajuntamento de gente foi imediato. Um corpo boiava no meio dos igarités, bem onde Filó ia lavar o jambu e encher o balde. Assustou-se, saiu gritando por entre as pessoas, até ser socorrida pela mãe que, percebendo o grito da filha, veio correndo. O tenente avistou apenas Filó sendo levada. Venceu a distância em segundos enquanto ouvia os gritos - é aqui... aqui.... as pessoas chamando... - tem um morto! Só assim entendeu o grito da mulher que queria, e foi ver.

O Ver-o-Peso virava num burburinho de gente querendo chegar na beira; os soldados isolando o lugar, o povo se apertando cada vez mais, alvoraçado com a chegada dos bombeiros.

O fato ganhou as imediações, foi se espalhando pela cidade como um rastilho de pólvora. Num instante, a multidão foi aumentando, até parar os bondes que não tinham como trafegar pelas ruas próximas ao Ver-o-Peso.

Cada um tinha sua versão do ocorrido: uns descreviam o combate do morto com a visagem; outros que era ela própria que findara debaixo dum casco de vapor. Muitas versões circularam pela multidão querendo chegar mais perto do necrotério para onde foi levado.

O corpo já estava em decomposição, viera com a maré, sendo comido pelos peixes, irreconhecível.

No necrotério, ficou estendido ao lado do outro morto, vindo do Porto do Sal, exposto à curiosidade do encarregado, que se gabava como se entendesse da ciência:

- Esse morreu afogado, era novo ainda, uns vinte e poucos anos, se muito. Sem identificação, roupas boas, um pouco descuidadas, mas boas. Já aquele Sr. Raimundo de Souza foi ataque do coração. O mais novo não temos como identificar com o que restou das roupas, só uma única coisa posso quase garantir, vivia sozinho. É uma dedução, seu Libório, pelos botões... alguns pregados com linha de outra cor... só pode ser! E pela idade, talvez seja um militar, um estudante.

Seu Libório tirava as medidas calmamente quando a mulher chegou, chorando. com as duas filhas pelas mãos e seu Dedé do Acaraqui, compadre dela, que a buscou no Combu com a notícia da morte do marido. Lá fora juntava gente querendo ver os corpos, saber dos detalhes. A brigada de prontidão, instalada ao lado do necrotério, com ajuda dos bombeiros, foi desfazendo a confusão formada nas imediações.

O tenente Alvino com mais dois soldados examinavam o porto do Ver-o-Peso, por entre os igarités e freteiras, fazendo uma pequena multidão acompanhar. Nada achando, chegou até a barraca de Tia Merença, onde Filó estava sentada no chão se refazendo do susto.

- Quem é? Perguntou à moça, - peguei nele Alvino... por São Marçal, peguei nele...

O tenente acalmou Filó e a multidão em volta, contando que ninguém sabia quem era, tinha morrido afogado, era a única coisa que sabia.

Na porta do necrotério, o repórter perguntava à viúva sobre o morto. Ela não conseguia falar, o choro tomava conta, Dedé falava por ela:

- Tuda vida cumpadre Reimudico medrou de visage, tinha medo inté dus barulho da água na quilha, assombrado... assombrado... assombrado...! Era só falá dum assunto mais do lado do mistério, que ele saía de perto. Valente que era, num medrava de nada que era vivo, não. Uma vez entralhava a rede, deu cuíra de ver a soca mexeno demais na aragem... correu, era a sucuriju de maior tamanho que teve no Combu. Foi a única vez que correu dum vivo.

Enquanto o ribeirinho falava, o funcionário do necrotério fez sinal para o repórter entrar, como se tivesse outras informações a dar. Na porta, a multidão aguardava curiosa qualquer movimento.





Teatro Ideal


O TEATRO IDEAL APRESENTA: JÚLIO VILLAR
NO MONÓLOGO “ O ENTERRADO VIVO”.


Seu Alfeu era só alegria, primeiro pela reforma do teatro para a temporada do Círio, depois pelo programa que iriam apresentar. Mandou fazer dezenas de cartazes e espalhou pelos logradouros e casas comerciais. Aproveitava a agitação da cidade com o Círio e aquele componente adicional, que era só no que se falava desde o dia anterior, um ser assombrando a baía de Guajará. Antevia seu Alfeu muito dinheiro entrando na bilheteria. A abertura do teatro iria ser um sucesso.

Procurou o artista no hotel, propondo uma temporada maior devido aos fatos. Deixariam para anunciar nos últimos dias, em cena aberta, economizando assim com novos cartazes. Júlio Villar prontamente aquiesceu, fazendo apenas uma exigência de ganho um pouco maior do que o contratado.

Naquela mesma manhã, perto do almoço, Júlio Villar foi procurado pelo cônego Gaudêncio, a mando do bispo, pedindo o cancelamento da apresentação daquele monólogo anunciado nos cartazes, uma vez que não ficava bem aquela peça ser levada no clima de agitação que vivia a cidade, às vésperas do Círio de Nazaré, com a tal da visagem do Guajará. Que o artista escolhesse outra peça em seu repertório, por todos sabido, um dos melhores que o público paraense iria ver.

O recado do artista chegou ao teatro. Seu Alfeu acabava de se despedir de Ranulfo que viera lhe informar as últimas notícias que sairiam em manchete no jornal. Ranulfo da porta ouviu o recado, e preveniu o amigo que poderia ser o bispado tentando cancelar a apresentação daquela peça. A pressão que eles estavam fazendo era muito grande. Com essa história da visagem, eles temem que atrapalhe as festividades deste ano.

Seu Alfeu apanhou o paletó e saiu às pressas da sala e das vistas do mensageiro que subornou para não tê-lo encontrado.

Ninguém sabia de onde o boato saiu, mas corria de boca em boca que “ O Enterrado Vivo” não seria mais apresentado naquela temporada. Seria substituído por outra peça do repertório do artista. Na bilheteria do teatro, não se confirmava nem se desmentia. Seu Alfeu, ninguém encontrava.

No hotel, Júlio Villar não queria falar com ninguém, antes de se avistar com a direção do teatro. Até a entrevista ao jornal pedira pra cancelar, com medo de que o repórter perguntasse qualquer coisa sobre a mudança de repertório.

Nas imediações do Teatro Ideal, fazia-se chacota sobre a estréia marcada para o dia seguinte quando chegou a notícia do rapaz encontrado no Ver-o-Peso e da mulher atacada na ilha de Cotijuba. Cada um que contava tinha sua versão. Para uns, o rapaz fora jogado do navio americano e o capitão já estava no necrotério para reconhecer o cadáver. Para outros, era tudo invenção do dono do teatro para encher a casa. A mulher atacada, era alguma assanhada do navio americano, tomando banho e que se assustou com algum pescador. Os boatos foram se espalhando pelo arraial, nas proximidades do teatro, desencadeando uma curiosidade nunca vista, nem mesmo no primeiro filme do Olímpia ou no Teatro da Paz, em apresentação de grandes companhias. Todos queriam adquirir seus ingressos antecipadamente.
No Teatro a grande confusão. Seu Alfeu não aparecia, a bilheteira não sabia o que fazer com aquele tumulto; os lugares todos vendidos, o povo na porta, exigia outra sessão.

A noite apenas começava no arraial, fervilhando de gente. O assunto de todos era a visagem e o monólogo do artista português. Ouvindo, o povo se aglomerava. Cada um que começava a contar que viera do Ver-o-Peso, ajuntava uma pequena multidão ao redor.





No Arraial de Nazaré


Os dois faziam a alegria de seu Canduco. Era a barraca de maior movimento no arraial. Chegaram de manhã e dali não saíam, comendo e bebendo em meio à roda que se formava pra vê-los. O violão, não sabia de onde tinha vindo, mas agora corria a roda, quando parava nas mãos do músico carioca era aquela melodia refinada, coisa pra Teatro da Paz, pensava seu Canduco. Quando alguém interrompia com notícias da tal visagem, o poeta paulista anotava tudo em pedaços de papel, que ia enfiando no bolso da calça. De vez em quando, recitava um verso, também refinado para os ouvidos do barraqueiro. Parecia um pouco com as coisas dos batuqueiros do Reduto, mais despudorados, se é que entendia direito.

Sua filha desmanchava-se em atenções com o poeta que a distinguiu com um verso, mas ao declamá-lo, olhava mesmo era para a mulher do barraqueiro ao lado:

Há nos teus braços
Na precisão dos contornos
A pele da juventude
Sem nenhuma palidez
E o maternal delatado
Que olho com polidez

Há nos teus braços
Marcas de outros caminhos
Que te laçaram com avidez
E vestígios de um amor
Que o instinto quase desfez

Há nos teus braços
Todos os ângulos
Dos gestos lânguidos
Que tem o prazer

Há nos teus braços
O sensual desenho
De sol passeando
No horizonte das tardes

Há nos teus braços
Um pedaço de mim
Crucificado
Há nos teus braços
Solidão e intenções
Reparando, sem reparar
O abraço do meu olhar


Quando o poeta terminou de recitar, olhando pra ela, os curiosos até aplaudiram, todos sorriram até o marido.

Decorria o dia, a roda ia aumentando, atraindo quem passava. Os dois visitantes ouviam todos que quisessem tocar, aplaudindo, perguntando. De longe, parecia que aquele aglomerado de gente estava ouvindo alguma notícia da visagem mas, ao aproximar, encontravam o sarau ao ar livre.

Camargo Neto, o poeta maior, passava com um grupo de amigos bem na hora que alguém terminava de ler a “Elegia Curiaú” obra de João dos Gomes, poeta mameluco, conhecido apenas no Reduto e publicado graças ao empenho do jornalista Ranulfo, da Província do Pará.

Você o vento da noite
Eu o vento do dia
Ao amanhecer
Juntos nos canaviais
Vamos beber na fonte
Rodopiar por aí
Percorrer os matos
Você lembrando seu amor
Eu o meu
Vamos roubar o aroma
Das plantações de fumo
Fazer ondas nas águas
Assobiar por aí
Ao entardecer
Sentir saudades
Virar brisa
E cantar baixinho
Você lembrando seu amor
Eu o meu...

O autor, sentado entre o poeta paulista, e o músico e compositor carioca, sorria. Acompanhava a leitura, balbuciando os versos bebidos pelos dois novos amigos. O silêncio parecia perfumar o ar.

Camargo Neto parou e ficou apreciando a valsa tocada a seguir. O violonista com o charuto preso nos dedos da mão direita, tocava assim mesmo, com grande desenvoltura, dedicando aquela valsa ao autor da elegia.

Ao terminar, os aplausos ecoaram pelo arraial, atraindo ainda mais gente. Camargo Neto aproximou-se do grupo, apresentando-se e sendo também aplaudido. Conhecido que era, foi logo intimado a declamar “O sonho Cabano”, sua obra mais conhecida, sempre obrigatória pela pungência e modernidade dos versos, o que fez sem nenhum constrangimento.

Paneja a bandeira, cabano
Exorta bravura da luta
Trazendo lingada de sonhos
Em laivos de terra nova

Noutrora laço tisnado
Traição coragem refuta
Lobrigando os aleivosos
Vendendo nonada conduta

Oblitera dias de dono
O sumário das balas
Canhão que um corpo cala
No Vintismo conforme

Dobra as duzentas
E cinqüenta e seis
Bandeiras, cabano
No túmulo de cal
Sesmarias sementeiras
Das rústicas sementes
Libertas do desterro

Drogas do sertão
Ódios de porão
Corrente opressora
Aduzindo alvitre

Alarvia em sonhos
Algarviada cabana
Panejando a vontade
De liberdade sem tomo


Os aplausos foram intensos. João dos Gomes levantou-se para cumprimentar o poeta e, na emoção da hora, com a voz pequena e grave, sem a verve do colega começou a recitar no mesmo tema:

Raça desvalida
Que terra amou?
Seu cheiro de guerra
Em canto soou

Vem de onde vem
Acaso ou certeza
Disfarça contando
Encobre o sangue
Dissimula rezando

Diverso o gentio
Cativo vagou
Vermelho sangue
Calando ficou

A pele escura
Prisioneira chegou
O breu da chibata
A moeda pagou

O gume das facas
Penetra em vão
Onde tudo dá
Natural e são

O compositor carioca e o poeta paulista assistiam e aplaudiam Camargo Neto e João dos Gomes, abraçando-se emocionados. A música tomou conta daquele ponto do Arraial.

A valsa executada a seguir pelo compositor carioca, dizia ele, era parte da peça “ Quadrante Norte “ em fase final de composição. Ao começar a tocá-la, o poeta paulista levantou-se, declamando, como que saudando Camargo Neto e João dos Gomes:

Natureza em labor
Espalha rios, florestas
Em entrelaço

Vidas, entranhas
De espanto altivo
Em servidão

Conhecendo a riqueza pobre
De lâminas e arengas
Braços aprisionados
Em qualquer valia

Desordenando raças
Espalhando a riqueza pobre
Nas despensas abastadas
Dos brasões reluzentes
De feras que rezam





Terraço do Grande Hotel


No terraço do Grande Hotel, o movimento era grande. Na mesa do Dr. Cavalcante, o mesmo assunto: o preço da borracha aviltado, o cacau, as dificuldades daquele momento com a política, o movimento grande de pessoas para o Círio e a tal da visagem.

Com a chegada do jornalista José Torres, relatando as últimas notícias, o assunto da visagem predominou. A conversa foi longa sobre quem viu, quem não viu, sobre as pessoas mortas e o movimento de gente no comércio, no Ver-o-Peso e nas estações. Dr. Cavalcante ouviu sorrindo o jornalista e prometeu atender seu pedido de intervenção junto ao bispo - que estava furioso com o principal assunto da cidade naquela véspera de Círio. Já havia enviado pelo cônego Gaudêncio pedido ao seu jornal para que não desse tanta importância aqueles boatos. O bispo estava mobilizando todos, queria tratamento de polícia para o caso, e o cônego a seu mando estava indo de jornal em jornal, fazendo reclamações e ponderações para que o assunto não fosse levado a sério pela imprensa. Até no Teatro Ideal ele foi, por causa do título da peça que seria levada. Dizia o jornalista José Torres.

Dr. Cavalcante assumiu compromisso e mandou na hora mensageiro solicitar ao bispo que o recebesse.

O mensageiro voltou no final da manhã com a resposta, o bispo o receberia naquela mesma tarde.

Dr. Cavalcante era um dos homens mais ricos e influentes, dono de casa aviadora, banqueiro, comerciante, jurista respeitado, além de devoto fervoroso de Nossa Senhora de Nazaré. Amigo de políticos, autoridades e irmão de Dom Francisco, que o recebeu sorrindo e foi ficando sério ao ouvir o irmão pedir pra deixar os jornais com aquelas sandices todas, pelo menos até o dia do Círio. Aquilo estava movimentando o comércio. Pedia ao bispo que todas as paróquias celebrassem missas em intenção da alma daquele infeliz ser que vagava pela baía e assim, em vez de desagregar o povo na quadra nazarena, trá-lo-ia mais pra perto dos festejos.

O povo - dizia Dr. Cavalcante - acredita que o carregador morto, o rapaz afogado e a mulher atacada foram vítimas da visagem. Deixa acreditar! Nunca vimos tanto movimento nas ruas. Meu irmão sabe que, quando o comércio vai bem, a igreja também vai. O povo está assustado e é nessa hora que precisa ter mais fervor em Nossa Senhora de Nazaré.

O semblante de Dom Francisco foi se desanuviando, quase convencido pela empatia do irmão que despediu-se, aguardando a reflexão do bispo sobre seu pedido e prometendo ficar aquele assunto nos jornais somente até a véspera do Círio e ir acompanhando a família na Procissão da Transladação.





Vila do Pinheiro


Na estação do Pinheiro, Dália embarcou Isabel e voltava macambúzia, mal ouvindo o que Batino conversava com ela. Na noite anterior Pai Constâncio lhe dera um banho de gamela e uns apalpões, ela tinha nojo dele como homem, sabia das filhas de Iansã, mas não queria o mesmo. Absorta em seus pensamentos nem notou quando o trem passou e Isabel acenou despedida, foi preciso que Batino lhe apontasse. Como iria contar a ele que Pai Constâncio tirou graça com ela? Mas como não contar? A irmã dele viu, e era muito fofoqueira. Melhor contar logo a Batino, se tivesse que ser, tomava logo a surra. O que queria mesmo era acabar com a agonia que sentia. Quem sabe ele desse uma coça em Pai Constâncio, aquele sem vergonha. Pensava Dália.

- Na estação do Curro não se fala noutra coisa a não ser da morte do carregador, no furo, perto do Porto do Sal. Raimundico do Combu morreu de susto quando viu a visagem - ela ataca a qualquer hora, disseram. Já apareceu um morto no Ver-o-Peso, a polícia está lá de prontidão. Saiu até em jornal, contava Batino, sem que ela prestasse nenhuma atenção. Juntava coragem, mas ele só pensava no igarapé. Quando lá chegaram, ele queria logo, ela conversar primeiro, resolvida a falar tudo. Quando começou, ouviu o barulho. Viraram-se e viram de costas a visagem na montaria saindo do igarapé, gemendo ronco... Correram o que puderam, saindo mato afora, com o susto. Dália, ofegante, esperou voltar a respiração ao normal, Batino acalmar-se também, aí começou a contar. Ele, valente que era, correr da visagem, já o tinha deixado diminuído e nessas horas se enfurecia com violência.

Ela não avaliou que a hora não era boa e falou do assanho de Pai Constâncio, contou da noite anterior que ele a apalpou no terreiro, quando tomava banho de gamela, encostou na bunda e falou no ouvido, convidando.

Batino, que ouvia tudo calado, de cabeça baixa, desgovernou-se. Espadaúdo que era, bastou um tapa só: ela caiu rolando pelo barranco, ele em cima, com pontapés na cabeça. Esbravejando e xingando:

- Tu deitou com ele... tu não presta, tu te oriente ... tu deu pra ele... e saiu com os pés sujos de sangue deixando o corpo da moça com a cabeça arrebentada no meio das canaranas.

Quem a achou foi seu Frauzino, tocador de requinta, que sempre num final de tarde ia ali, naquele mato, ensaiando toque, aprendendo com as pipiras. Assustado, pareceu reconhecer a filha do Lico Foguista. Correu em casa gritando para o cunhado ajudar, que tinha achado uma moça morta com a cabeça espocada. Mandou chamar o foguista, que chegou quando eles a traziam pelo caminho, confirmando em prantos ser a filha. Dava dó ver seu Lico abraçando-a, sentado no chão, chorando.

Batino vigiou a casa do pai de santo até surpreendê-lo sozinho com uma terçadada na cabeça. O corpo desfalecido, arrastou até o alagado do fundo, onde o sangrou pelo pescoço, quase decepando a cabeça. Dali saiu sem que ninguém o visse depois de se lavar do sangue. O corpo com a preamar iria dar no trapiche do Ferreirinha e a tal da visagem levaria a fama. Pensava Batino.

Quando ia virando o canto da rua, sua irmã vinha correndo buscar Pai Constâncio e contou-lhe abraçada, chorando, que Dália tinha sido vítima da visagem, estava morta com a cabeça toda esmagada. Batino por um instante quis falar à irmã que era só uma peia que queria dar, mas ficou calado e começou a chorar junto. Por dentro, pensava no tanto que gostava de Dália, mas já que estava feito, que a visagem levasse a fama pelos dois.

Pai Constâncio foi encontrado assim que a maré subiu, enganchado na palafita da casa do Ferreirinha, ainda com o sangue quente e sanguessugas por todo o corpo.

O assombro foi muito grande. A Vila inteira compareceu ao terreiro onde velavam os mortos. Cada um contava o acometimento da visagem de um jeito: uns diziam que eram mais de uma centena e só atacavam perto d’água; outros que elas já tinham encostado as montarias e vinham pelas ruas. O medo foi tomando conta, muitos procuravam a estação para sair da Vila. No trapiche, o medo se alastrava, em pouco tempo as pessoas saindo a pé pareciam formar uma procissão.





Folha do Norte


Os colegas riram de Cheiro Verde até a chegada do Dr. Pedro Nobre com o comandante do navio americano. Trancaram-se na sala e, depois de quase uma hora de conversa, chamaram seu Juvenal, em seguida Cheiro Verde. Foi sua grande oportunidade. Mudaram a manchete, acrescentaram os últimos fatos, mas não quiseram mencionar o americano. Seu Juvenal, na saída da sala, pediu tempo integral no Ver-o-Peso; entrevistas e, se houvesse fato novo, chamasse o fotógrafo.

Para a alegria de Cheiro Verde, a matéria saiu com seu nome, mas titulada com “ VISAGEM FAZ MAIS VÍTIMAS NA BAÍA DE GUAJARÁ”. Passou a noite esperando a impressão, pensando que dali pra frente seu Juvenal iria tratá-lo melhor, falar olhando pra ele, com respeito.

Saiu pela manhã com o jornal debaixo do braço, direto para o Ver-o-Peso, onde mostrava pra todos os conhecidos, empavonado. Agora era um dos principais jornalistas da Folha do Norte, dizia.

Exibindo sempre o jornal debaixo do braço, foi atrás dos últimos acontecimentos. Conversou com uma dezena de pessoas que os presenciaram, tentando descobrir algum detalhe que tinha escapado.

Parou no garapeiro e leu um pedaço da sua matéria pra ele:

“Um corpo chegava ao necrotério, quando o grito de mulher fez todos correrem numa confusão de empurrões e tropeços. No Ver-o-Peso, a moça achou o afogado entre os igarités. Assustada, gritando e chorando foi socorrida pela mãe, a conhecida Tia Merença e pelo garapeiro Jonas.

Agora são duas as vítimas da visagem que muitos não acreditam existir. Os soldados da brigada, de prontidão no local, pediram ajuda aos bombeiros para conter a multidão de curiosos.”

Quando terminou de ler, o sorriso de Jonas foi até as orelhas, Cheiro Verde pensou que Ducina tinha razão quando perguntava nomes ao ajudá-lo com as matérias.

Terminava de tomar a segunda cuia de tacacá quando soube da Vila do Pinheiro. Queria ir lá, mas primeiro ia confirmar se não era boato; naqueles dias nada do que se ouvisse na rua podia ser acreditado sem uma confirmação. Resolveu passar na redação antes.

- Mas é um pedido do bispo, dizia seu Juvenal para Dr. Pedro Nobre, que não cansava de olhar as horas no relógio de bolso.

- Não podemos deixar de publicar o assunto, os outros jornais estão dando cobertura completa. O povo na rua, é só no que fala, não podemos abrandar. O fato é grave, tem mortes e pelo número de gente que viu, ou de alguma forma teve contato com a tal visagem, vai ser difícil parar... imagine ficar de fora. São quatro mortes e uma mulher atacada.

- Quatro? Onde foram as outras? Perguntou seu Juvenal, sentando no canto da sala.

- Uma moça e um pai de santo, lá na Vila do Pinheiro. Soubemos há pouco, mas não temos confirmação, respondeu Cheiro Verde, entrando na sala.

- Além do mais, não acredito que isso dure até depois de amanhã. Falam que estão se organizando pra vigiar a baía pelo menos durante o Círio. Melhor manter o assunto na primeira página. Mande confirmar a morte da moça e do pai de santo.

Moça morta e um pai de santo na Vila do Pinheiro. Cheiro Verde queria ir lá, mas seu Juvenal pediu que ficasse de plantão na porta do necrotério; ia mandar outro. Já que ninguém confirmava as mortes, se de fato tivessem acontecido, os corpos chegariam a qualquer momento, melhor ele estar no necrotério.

Saiu pensando passar primeiro na pensão da Florete para ver Ducina e mostrar a primeira página do jornal, mas viu Ranulfo da Província indo com as mãos no bolso como se tivesse fazendo um passeio por ali. Ia direto no rumo do Ver-o-Peso. Cheiro Verde o seguiu até encontrá-lo conversando com tia Merença e Filó.





A Província do Pará


Ranulfo, sentado na mesa do editor, rabiscava o papel, pensando no corpo quente da mulher que o esperava e irritado por ter sido chamado logo naquele dia, ainda mais por ter ficado a noite toda e estar ali, até aquela hora. Absorto em seus pensamentos, nem percebeu quando o cônego Gaudêncio entrou com o Dr. Artur. Sem graça, levantou da cadeira do patrão, cumprimentando. Ia sair quando foi convidado a ficar.

Em nome do bispado e da direção da festa, o religioso pedia que não dessem tanta importância àquela crendice de seres sobrenaturais e aparições, afinal era antevéspera do Círio e aquele assunto estava tendo um destaque inadequado, tão próximo à grande festa paraense. Dr. Artur olhava Ranulfo como se pedisse sua opinião, ao mesmo tempo em que se despedia do cônego.

- O que acha? Perguntou depois do religioso sair, confirmando o olhar.

Antes que respondesse, entrou Anísio com a notícia de um morto no Ver-o-Peso. Uma mulher atacada em Cotijuba e um boato sobre duas mortes na Vila do Pinheiro: uma moça e um umbandista. Contava que as autoridades já estavam tomando providências.

Dr. Artur ficou algum tempo pensativo, olhou cada um como se confirmasse sua decisão e começou dar as ordens:

- Primeira página. Mande chamar o Dr. João Freitas, temos que lidar com as autoridades. Quero uma frase bem forte, Ranulfo, vamos acabar com a concorrência, porque depois dessas mortes eles vão destacar os fatos.

Seu Anísio novamente não gostou do título que Ranulfo deu:

MORTE E ASSOMBRO
NO CÍRIO DE NAZARÉ


“São muitas as vítimas da visagem que espalha o pavor pela baía de Guajará. Foram confirmadas duas mortes, o estivador Raimundo de Souza, morador da Ilha do Combu, encontrado morto com os olhos esbugalhados, sem ferimentos dentro da canoa nas proximidades do Porto do Sal e o estudante não identificado, cujo corpo achado no porto do Ver-o-Peso pela filha da conhecida Tia Merença, já estava em estado de putrefação, aparentando marcas e ferimentos.

Na ilha de Cotijuba mais uma vítima quase fatal. A senhora Nazaré dos Anjos, esposa de Idelmar dos Anjos, conhecido pescador daquela ilha, foi atacada em plena luz do dia pela visagem que teria quase consumado o intercurso carnal, se não fosse a chegada dos pescadores que a socorreram. A vítima chegou a ver a visagem, mas se nega, traumatizada, a falar no assunto.

Na Vila do Pinheiro, foi confirmada a morte de uma jovem e de um dos mais conhecidos umbandistas de Belém, Pai Constâncio, cujo corpo mutilado foi enterrado junto com o da moça ainda não identificada, em uma cerimonia religiosa, sem que as autoridades tivessem conhecimento.

A lista de embarcações que encontraram a visagem cresce com o movimento de chegada dos fiéis para o Círio. Deles a informação de que muitas pessoas do interior desistiram de embarcar na última hora, com medo desse ser estranho.

Os fatos preocupam os organizadores do Círio de Nazaré e o bispado, que já solicitaram a intervenção das autoridades para apurar as mortes e não deixar o misticismo tirar o brilhantismo da festa de fé do povo paraense.

As autoridades mobilizadas destacaram guarnições de prontidão nos principais pontos da cidade e criaram uma comissão especial para coordenar as atividades comandadas pelo próprio intendente. Na capitania, duas alvarengas fortemente armadas foram destinadas ao patrulhamento da orla.”

Ranulfo ao chegar, a casa vazia e o bilhete em cima da petisqueira, aquela letra quase desenhada de Nora:

“Fui para a casa da tia, no Marco da Légua, não estou correndo como os outros de nenhuma assombração. Fique com seu patrão, com o jornal e com quem mais quiser, eu fico com o mel, mentiroso”.

Só aí Ranulfo se deu conta de que estava fora de casa fazia quase dois dias. Tomou um banho, trocou de roupa, disposto a ir até o Marco atrás de Nora. Ao sair de casa notou o movimento grande na rua e mudou o rumo para o jornal.

No jornal, seu Anísio tentava despachar dona Noemi, sobrinha do Dr. Artur, com suas estrofes para serem publicadas no domingo do Círio. Ranulfo passou, evitando que ela o visse e pedisse opinião, indo direto pra sala do patrão com a notícia de que o povo estava fugindo para o interior, as estações estavam todas cheias e tinha gente saindo da cidade de toda maneira, evitando a margem da baía e qualquer furo ou braço dela. Quem morava próximo de algum igarapé então, já tinha saído há muito.

Pedia ao patrão enviar alguém à Vila do Pinheiro, ao Marco da Légua, ao Porto do Sal, às estações. Ele se encarregaria do Ver-o-Peso e do necrotério. Dr. Artur prontamente foi atendendo o que Ranulfo ia pedindo; autorizou na hora e contou do grande amigo e poeta que chegou no navio americano. Decerto tinha visto alguma coisa, ele mesmo iria avistá-lo. Ranulfo saiu da redação rumo ao Ver-o-Peso, onde tinha certeza de encontrar outras informações.

Caminhava entre as pessoas, absorto, com o pensamento ora na mulher que o deixara, ora na balbúrdia que estava virando a cidade, quando viu e foi visto por Filó, pelos olhos e pelo corpo de Filó. Foi um encantamento. Visagem era ela! - pensou sem saber o que fazer quando ela falou:

- Contra inveja, meu mano, tu te resolve. Leva comigo-ninguém-pode, cipó-pucá e vence-tudo, tuma que é garantido de tia Merença.

Cheiro Verde se aproximou do colega que sorria pra Filó e, puxando-o pelo braço, perguntou o que ele sabia, dizendo ser a hora de deixarem as divergências e trocarem as informações que tinham.

Enquanto conversavam, Ranulfo não tirava os olhos de Filó que também não tirava os olhos dele. Cheiro Verde sentia sua importância chegar e pensava: tomei-lhe a mulher, agora vou tomar a fama - lembrou quando cruzou com ele na pensão da Florete no dia que conseguiu o emprego no jornal e foi festejar. Lembrou que olhava pra ele e pensava: - um dia vou ser mais famoso que tu, muito mais famoso.

Tanto um como o outro já sabiam da reunião na intendência, mas guardaram a informação. Na verdade, tudo que conversaram já era sabido pelos dois.





Estado do Pará


Na primeira página:

VISAGEM ATACA NOVAMENTE

“As últimas informações, que nos chegam sobre o caso do ser demoníaco que assusta quem chega à cidade pela Baía de Guajará, dão conta da preocupação das autoridades com o tumulto que se forma no Ver-o-Peso e Porto do Sal, principais áreas de desembarque para os barcos que chegam do interior. Também nas ilhas continua o clima de insegurança. Desta vez, foi atacada, numa praia na ilha de Cotijuba, a senhora casada com o pescador Idelmar dos Anjos. A visagem teria tido um intercurso carnal com a senhora que, distraída, andava pela praia quando foi atacada por esse ser demoníaco que atormenta agora, não só os navegantes na madrugada, mas à luz do dia ataca os ribeirinhos de nossas ilhas. Depois de aparecer morto em sua embarcação no Porto do Sal, o carregador Raimundo de Souza, velado na residência dos familiares da esposa, no Reduto, foi enterrado esta manhã. O outro cadáver, até agora não identificado, que apareceu boiando no Ver-o-Peso continua no necrotério aguardando identificação, enquanto o boato sobre a moça e o pai de santo encontrados com as cabeças decepadas na Vila do Pinheiro, aguarda confirmação das autoridades. Pelo visto, as famílias da moça e do pai de santo já enterraram os corpos numa cerimônia de umbanda, sem notificar a polícia.

Cresce o número de pessoas que viram o ente navegando em sua canoa de luzes. Agora é um caso para as autoridades que estão tomando todas as providências na investigação. A brigada já destacou uma guarnição comandada pelo Tenente Alvino de Albuquerque para ficar de prontidão no Ver-o-Peso. No Porto do Sal, comandada pelo tenente Flores Neto, outra guarnição acompanha os acontecimentos.

Duas alvarengas fazem o patrulhamento da baía de Guajará com homens fortemente armados.

As autoridades e o bispado pedem ao povo que mantenham a calma e façam suas orações e não deixem que o misticismo tome conta de seus corações. ”

Entrou muito irritado o jornalista Tibúrcio Maia com o jornal debaixo do braço. Chamou todos da redação e determinou que não se publicasse nenhuma linha mais daquele caso. O assunto estava proibido por ordem superior. O partido não ia se indispor com a igreja e com as alianças políticas. Bem que ele tinha sido contra desde o começo, se o tivessem ouvido, não teria passado o vexame de ser chamado e levado aquela descompostura. Daquele momento em diante nada deveria ser publicado sem que ele mesmo autorizasse.

João Merino, no canto da sala, calado, esperou o colega falar tudo que queria, todos voltarem às obrigações, sentou e calmamente começou a argumentar que não podiam ficar de fora de um assunto daqueles, que se diminuísse o destaque mas, não publicar nada enquanto os outros jornais o faziam era não respeitar os leitores. Foi interrompido por Tibúrcio Maia com um tapa na mesa e um ponha-se fora daqui, ouvido até fora da sala. Num segundo estavam atracados em briga corporal, tapas empurrões e pontapés, provocando o maior tumulto no jornal e atraindo até quem passava na porta.

Entre os transeuntes, estava Cheiro Verde que parou e pôde se inteirar do que acontecia ali.





Na Intendência


A sala de espera que dava acesso ao gabinete do intendente estava cheia. Num canto, cônego Gaudêncio conversava com Dr. Cavalcante, irmão do bispo; no outro, o presidente do conselho ouvia com muita atenção o major Eustáquio da Brigada Militar. Aguardando na ante-sala, Dr. Artur, da Província do Pará; Dr. Pedro Nobre, da Folha do Norte, cada um sentado de um lado do sofá.

No gabinete, o intendente, em conversa reservada com o tenente Felópio, da capitania, e o desembargador-chefe de polícia Dr. Otávio, inteirava-se do resultado do patrulhamento da baía. Ouvia atentamente:

- Nada foi encontrado de anormal, as alvarengas patrulham dia e noite. Foram interceptadas dezenas de embarcações. Em nenhum caso constatamos fatos Somente o diz-que-disse de alguém que contou que alguém viu, mas nada que merecesse investigação. Tudo leva a crer que a história não passa de invenção de alguém mexendo com a crendice do povo.

- E as mortes, a mulher molestada? perguntava o intendente.

- Se o senhor considerar o misticismo do povo, tudo que acontecer de ruim na cidade vai ser atribuído à visagem.

- Essas mortes foram investigadas com rigor? perguntava o tenente ao chefe de polícia.

- Com muito rigor! Ainda estamos investigando os casos da Vila do Pinheiro. Temos uma morte que foi ataque do coração, outra por afogamento. Segundo atestam os médicos legistas, a senhora atacada não foi encontrada para esclarecimentos; o marido levou a família para o interior de Bragança. Na Vila do Pinheiro, as investigações estão atrasadas porque os corpos já tinham sido sepultados, mas confirmamos. A moça morreu com a cabeça esmagada, o pai de santo foi degolado.

- Se a teoria do tenente está certa, vamos espalhar que as alvarengas conseguiram encontrar o tal ser e o prendeu. O que o senhores acham? Propôs o chefe de polícia.

- Teremos que administrar uma multidão que vai querer vê-lo preso. Vamos ouvir o comandante da brigada. Pedindo pra chamá-lo, o intendente ficou pensativo, imaginando já dar a notícia aos jornais, cujos responsáveis mandara chamar.

A opinião do comandante foi de propagar a notícia de uma outra forma, dando como caçada pelas alvarengas e abatida a tiros. Houve uma unanimidade entre os presentes que passaram a planejar os próximos passos. A comunicação oficial seria feita ainda no dia, a tempo de sair nas manchetes. O intendente iria adiar a reunião com os jornais para o outro dia. A capitania colocaria mais duas alvarengas patrulhando o mais próximo da orla possível, para que fossem mais notadas. Na hora combinada, os disparos seriam intensos e que fossem simulados destroços de uma canoa, uma mortalha... coisas desse tipo para se ter o que mostrar.





Terraço do Grande Hotel


Quando Dr. Artur chegou, Pedro Nobre acendia a cigarrilha, sentado na última mesa. A convivência deles nunca tinha sido boa, mas ao receber o recado, Dr. Artur tinha certeza de que o assunto era do interesse dos dois. Achava estranho terem sido convocados para uma reunião com o intendente, adiada repentinamente.

Cumprimentaram-se com cortesia, e Pedro Nobre começou a contar que o informante que manteria em sigilo, estava participando como membro do governo que era, de um engodo cujo objetivo era acabar com os tumultos e a insegurança daqueles dias. A capitania iria simular a morte da tal visagem por uma das patrulhas que mantinha em vigília na baía. Iriam anunciar ainda naquele dia com tempo para as manchetes. Essa era a razão do adiamento da reunião com o intendente. Desde o começo vinha sofrendo pressões. O comandante americano que se dispôs a dar uma entrevista, resolveu não fazê-lo, inesperadamente. Dr. Cavalcante já o procurara pedindo que a Folha fosse mais discreta; acreditava que essa história toda não passava de crendice, mas era obrigação da imprensa manter a população informada, afinal, eles viviam de vender jornais. Que as autoridades apurassem as mortes com rigor e provassem ser misticismo a tal da visagem. Repudiava veementemente aquela forma de tentar manipular os acontecimentos e as notícias. Por esta razão tinha pedido o encontro. Nesta hora, cabia a eles mesmos, concorrentes, unirem-se contra aquele atentado à verdade.

Dr. Artur respondeu com agradecimentos a consideração, reafirmando serem concorrentes, mas não inimigos. Sabia da solidariedade da Folha em episódios passados de muita violência, dos quais foi vítima, e concordava plenamente com suas colocações. Sabia que alguma coisa estava errada naquela história toda, tinha sido procurado também pelo Dr. Cavalcante que havia lhe pedido o mesmo. Seu amigo e poeta Camargo Neto, que chegou no navio americano, ouviu um burburinho a bordo quando entraram na baía, mas não se interessou, percebendo somente a inquietação do comandante. De sua parte, concordava em não pactuar com o engodo articulado pelas autoridades. Propunha que se juntassem sem provocações, mantendo a dignidade da imprensa paraense.





Folha do Norte


- Sobre qual assunto mais gostaria de escrever na primeira página? perguntou Dr. Pedro Nobre a Cheiro Verde para espanto dele.

O jornalista, pego de surpresa, ficou sem entender a pergunta, justamente no momento em que as notícias chegavam de hora em hora à redação, a tiragem quase dobrava a cada dia e o pessoal do Estado brigando de tapa... Por que deixar o caso da visagem, as mortes, as aparições, a movimentação das autoridades que agora era intensa? Não entendia Cheiro Verde e nem seu Juvenal que olhava espantado.

Sem dar nenhuma explicação, Dr. Pedro insistiu, agora falando também a seu Juvenal:

- Qual o assunto que vocês sempre quiseram na primeira página? Escolham. Sobre a visagem, não quero mais nenhuma linha no jornal. E nenhuma pergunta - falou autoritário.

Seu Juvenal, que tinha toda a edição do dia do Círio já quase composta, sugeriu dividir a matéria nos dois dias. Cheiro Verde pedia até o final da tarde para escrever sobre a vida do pescador Plácido, contando sua história, romanceando um pouco como ele tinha achado a imagem de Nazaré, o que foi imediatamente aceito até por seu Juvenal.

Nas oficinas do jornal, ninguém entendeu nada, e foi um corre-corre de todos para mudar as notícias já compostas. A informação da capitania, que uma das alvarengas havia encontrado e matado a tiros a visagem, provocou um grande rebuliço, logo emudecido com a ordem de não se publicar nada sobre o assunto.

Cheiro Verde saiu apressado para a pensão da Florete. Agora mais do que nunca, precisava da ajuda de Ducina: imagina, duas vezes na primeira página... ainda mais na semana do Círio.





A Província do Pará


A redação estava às moscas, parecia ter morrido alguém de tão quieto.

Melhor seria enfrentar todos - pensava Ranulfo, que passara a noite trabalhando. Tinha tudo preparado com esperança de que Dr. Artur voltasse atrás. De uma atitude corajosa do jornal, enfrentando: governo, bispado e os medíocres. Imagine, abafar tudo que estava acontecendo na cidade! A Vila do Pinheiro quase abandonada, as estações cheias de gente fugindo... nos portos, o medo instalado em todos. Uma situação séria daquelas, e ele com todo o material recolhido para a reportagem, quase setenta e duas horas sem dormir, sem a mulher, sem poder se engraçar direito com Filó...

Quanto mais pensava, menos via lógica na decisão do Dr. Artur em aceitar aquela imposição. Ele sempre estivera ao lado da verdade, sempre concordara que só os mais privilegiados liam o jornal, mas a informação acabava chegando ao povo. Quantas vezes lutaram juntos contra o governo... quantas vezes ameaçaram empastelar a Província... Eles sempre tiveram a coragem de enfrentar assuntos até mais complicados, envolvendo política, as famílias, mortes e inimizades que duravam até hoje. Alguma coisa estava errada naquela decisão. Será que o patrão estava escondendo alguma coisa, um acordo político, talvez?

Por que se calar com a informação absurda de terem matado a visagem, como? Ordens de nem investigar, e pior ainda: não publicar nada sobre o assunto.

Vira o irmão do bispo conversando com ele no terraço do Grande Hotel, seria isso? Perguntava-se sozinho nos seus pensamentos. E as pessoas entrevistadas por ele, quando lessem o jornal com os poemas de dona Noemi na primeira página, louvando Nossa Senhora de Nazaré? Onde iria parar seu prestígio de jornalista aguerrido, sem temor, que construiu dia a dia por aqueles anos todos?

Dr. Artur sequer falou com ele. Quando chegou da rua soube, já tinha saído. Haviam conversado sobre a tentativa do bispo e das autoridades de abafar as notícias e chegaram a concordar que, mesmo não publicando nada como pedido, as notícias circulariam de boca a boca. Iria ser pior.

Estava cansado para ir procurar a mulher no Marco da Légua, cansado para Filó e cansado demais para ir embora. A sonolência tomou conta, no sofá dormiu a manhã toda, a tarde toda, até o começo da noite.

Foi acordado pelo Seu Breu, com o semblante assustado pelo barulho de tiros e muita gritaria vindos dos lados do Ver-o-Peso.

- Seu Ranulfo, seu Ranulfo, tem uma moça chamada Filó querendo falar com o senhor, urgente!





Estado do Pará


Apesar de saber de tudo, Tibúrcio Maia fingiu surpresa com a notícia e mandou fazer a cobertura, inclusive que levassem um fotógrafo.

Desde que viera para ajudar a fundar o jornal, estava acostumado a obedecer sem questionar nada. Afinal, o jornal era do partido do governo e seu interesse em uma nomeação política de maior importância era muito grande. Desde que veio de Cametá, estudante ainda, sempre conseguiu subir: o casamento, o emprego com o sogro, depois o jornal, no ano passado a diretoria da festa de Nazaré, e agora comandando sozinho o Estado, depois da briga com João Merino. Homem de confiança do governador, disse-lhe o intendente, estava exultante.

Quando o Estado do Pará saiu nas ruas, foi um acontecimento: os comerciantes festejavam; no Ver-o-Peso nem o Caviana, freteiro dos mais conhecidos, falando que viu a visagem naquela madrugada, pôde reacender os boatos. O Porto do Sal voltou à normalidade; nas estações a confusão desapareceu, os bondes transitavam normalmente; o teatro Ideal confirmava o programa e no arraial todos comemoravam. As pessoas começaram a retornar. Um sucesso o engodo armado. Entretanto, a brigada continuava de prontidão. A Folha do Norte publicava “A VIDA DO PESCADOR PLÁCIDO”, a Província do Pará vinha com a manchete “ POEMAS À NOSSA SENHORA DE NAZARÉ” e no Estado:

BAÍA DE GUAJARÁ
LIVRE DA VISAGEM


“Graças a pronta intervenção das autoridades que, nestes dias de pânico, tomaram todas as providências para garantir a segurança da população, foi abatida a tiros, esta tarde, nas imediações de Mosqueiro, pela alvarenga da capitania, comandada pelo sargento Abdias, da Brigada Militar, a visagem que nos últimos dias espalhou o terror pela baía de Guajará.

A patrulha naval, composta de quatro alvarengas, estava equipada com armas modernas e homens treinados e não teve nenhuma dificuldade em cercá-la no largo da ilha de Mosqueiro.

Conforme relato do sargento Abdias, quando acuada, ela se mexeu e os soldados dispararam a carga mortífera de uma canhoneta cedida pela brigada, especialmente para a operação.

O ser, depois de um grito rouco, calou-se para sempre, sumindo no ar, e as bolas de fogo que a acompanhavam, mesmo durante o dia, se apagaram como por encanto.

De toda a operação, sobraram apenas destroços da canoa, que oportunamente serão mostrados à população.

Ainda sob investigação da polícia estão as duas mortes ocorridas na Vila do Pinheiro. Os corpos estão sendo exumados para exame, uma vez que ambos apresentam sinais de violência, conforme testemunhas e familiares das vítimas.

Após a divulgação da operação bem sucedida da capitania, com a coordenação da Brigada Militar e da Intendência Municipal, a normalidade volta aos portos, feiras e estações. A população sai às ruas sem tumultos, as pessoas que fugiam para o interior começam a retornar.
A diretoria da festa do Círio de Nazaré espera um número muito grande de fiéis na Procissão da Transladação.”





Pensão da Florete


- Morro de medo dele não me querer mais, mudar o costume. Sem fama é melhor. Em que minhas letras vão adiantar de hoje em diante? Fui ensinando, corrigindo o que escrevia... igual com Ranulfo. Agora só no jeito dele mostrar o jornal, vi! vai me querer de um outro modo, querer me montar casa, e pra rabicho, fica com a Duca espanhola. Já vi o jeito dele olhar pra ela.

- Ajudei, ajudei tanto... ele me quis por isso. Lambuzar no saber garantido da professora, da amante de Ranulfo, trocada por coisa nova. Veio, veio querendo a sobra do já famoso, me importar por quê? Nunca importei, gosto. Gostei de tantos homens... não fosse assim tinha ficado na escola tolerando o Tadeu, querendo, querendo e me tendo... um falso, negando tudo pra irmã Alva, me deixando falada. Até os alunos querendo, e eu também querendo escondido; querendo descarado na rua, ensinando, querendo conhecer logo uma pensão de quartos.

- Gostei, gostava e gosto de muitos num dia só, mas de um só pra chamego. Quero cuidar, acordar com um pensando que é ele; esconder o vinho quinado de dona Florete... meu dinheiro, dele. Dar roupa nova, tirada do meu corpo, que depois tiro do dele.

- Fazia conta de querer amasio em casa no Reduto não! Queria era ele, esperando outros homens acabar de deitar comigo, depois ele dentro da minha carne, desfrutando dum pedaço que cada um deixava escondendo porta a-dentro do quarto.

- Tinha tristeza ver ele mostrar o jornal, cada palavra saída de mim, Dulcina, professora do Instituto; de mim, Dulcina, desamasiada do jornalista Ranulfo, da Província. De mim, Dulcina, contentando com seu terno de brim, com seu jeito franzino de esperar na sala a freguesia sair. Esperar o gole do vinho quinado surrupiado deles, o meu corpo surrupiando o dele.

- Minha vida era minha vida do jeito que quis, que todos os homens queriam. Dona Florete sabia porque ficava na sala a polaca, chegada recente, a Carmem espanhola, de lábios carnudos, não sabia. Fingia barato, mas Cheiro Verde criava fama, como criou Ranulfo no tempo dele. Eu gostava de fingir que não gostava. Fingir obrigação, mas os homens no meu quarto queriam minha verdade, meus modos de tirar as deles.

- Era assim que era. Assim como nem Ranulfo, nem Cheiro Verde nunca perceberam. Ia na procissão. Ia sim, com minha mantilha espanhola e minha fé.





No sarau na casa do poeta Camargo Neto


Os presentes ouviam atentos as palavras elogiosas com que Camargo Neto falava dos convidados. No canto da sala, Dr. Artur conversava com Sena Tavares, do Instituto Histórico e Geográfico, ladeado pelo poeta Júlio Manoel e o escritor Sérvio Malta, contando os fatos apurados pelo seu jornal e confirmando o protesto que faziam diante do engodo montado pela intendência, bispado e pelo governo estadual.

No canto da sala dona Beviláquia quase em sussurros contava à comadre que a filha seguira para Manaus no começo da semana, acabado o resguardo e que graças a Deus não encontrou o filho da dona Lila. Foram meses de apreensão com medo do rapaz saber que Maria Isabel estava em Belém e a procurasse. Contava do genro, tão bom, tão distinto.

Dona Matilde, ao piano, executava a partitura que o marido lhe presenteara, sem se importar com a desatenção de alguns presentes. Desde que a tocara a primeira vez, era a preferida de seus convivas habituais. Agora, todos ali iriam conhecer o jovem compositor que tanto sucesso fazia.

Entre licores e vinho do porto, a reunião se animava com o poeta Camargo Neto, contando suas impressões da viagem que fizera, seu contato com o modernismo que tomava conta da poesia no velho mundo, o abandono da estética pelo conteúdo, o encadeamento da metáfora com a realidade popular. Contava ter visto nas artes em geral, música poesia, teatro, literatura e até na pintura, os artistas buscando essas novas formas. Fazia severa crítica ao jornalista da Província, pela primeira página do jornal naquele dia: os versos de dona Noemi, mesmo belos, não possuíam a contundência para sua manifestação. Haveria ele de conhecer o jovem poeta paulista, a quem homenageavam com aquela reunião, e lhe beber os versos. Havia de se deliciar com o jovem compositor e sua música, já famosa nas salas cariocas.

As horas se passavam e nada dos convidados. Camargo Neto, inquieto, sorria sem graça, justificando serem dois jovens muito excêntricos e talentosos de passagem rumo a Manaus. De certo algum motivo teriam para o atraso.

A Procissão da Transladação já vinha vindo, os convidados se juntaram na sacada em orações. O anfitrião pensava: um convite aceito com tanta cortesia e a desfeita daquele atraso... olhava o relógio quando o mensageiro chegou com o bilhete, onde se desculpavam pela ausência, estavam acamados no hotel com indisposição devido ao prato popular, paxicá, que haviam comido na véspera, no Arraial de Nazaré. Enviavam com suas desculpas o poema “ Cruzeiro do Norte” escrito naquela manhã e a partitura da peça “Quadrante Norte”, concluída naquela tarde.

Dona Matilde mal esperou a procissão passar e já estava executando a partitura no piano, para deleite de todos que riam da extravagância dos dois artistas, com aquela comida indigesta. O poeta Camargo Neto aguardou o término da execução para ler embevecido o poema:

Cruzeiro do norte

Estão lá
Sem simetria
Nem ereto
Nem deitado
O traço das estrelas
Esta nu
E crucifica o olhar
Que na noite
Quer o norte
São no quadrante
Luminosos pontos
Que entregam à noite
Seus sinais
Sem cruz
Que ensina os caminhos
Em gestos
De luz

O silêncio foi total. Por instantes ninguém se manifestou até que o anfitrião exclamou:

- É de fato um modernista, está aqui. Batendo na folha de papel.

A sala ficou ainda em silêncio, muitos não compreendiam. Sena Tavares se manifestava quase que ofendido; Dr. Artur sorria com o constrangimento no ar, imaginando alguma coisa, assim, no lugar dos poemas da sobrinha. Que reação provocaria no bispado e nos leitores?

As discussões tomaram conta do ambiente até a chegada inesperada do Dr. João Freitas, à procura de Dr. Artur com a notícia do Ver-o-Peso.





A Procissão da Transladação


Com a madrasta e a tia, Merina seguia em fervorosa oração, quando o começo da Procissão do Translado já entrava na Praça Frei Caetano Brandão, levando a imagem de Nossa Senhora de Nazaré.

No Ver-o-Peso, um tumulto se formava. Pessoas correndo, gritando: - é a visagam. Muitos abandonando a procissão para ver de perto. Zinhá não resistia à curiosidade. Vinha acompanhando tudo que podia sobre o estranho caso. Puxou a cunhada e a sobrinha, quase à força, para ver.

Quando iam chegando perto, aconteceu alguma coisa que espalhou a multidão. Elas só ouviram um grito rouco, desesperado que não dava para identificar o que queria dizer. Destemida, Zinhá contagiava a sobrinha e a cunhada para chegar perto. O povo se juntou novamente, atrapalhando as três devotas. Merina, ainda de véu na cabeça, querendo voltar, a tia no meio do empurra-empurra, puxando-a pelo braço. À medida que a visagem mexia e emitia aquele som grave, engasgado, a multidão quase se dispersava de medo. Uns mais corajosos, pulavam dentro dos igarités para se aproximar mais do ente; outros o enxergavam pelo entremeio das velas.

Manel da Coroa também largou a procissão e correu pra ver o que era aquele ajuntamento e aqueles gritos. Curioso, entrou por de lado no necrotério e pôde ver a visagem bem de perto e, apesar do dia cedendo à noite, pôde reconhecer a canoa, conhecia aquela montaria, conhecia o chapéu... meu Deus! Era o amigo Sabá... meu Deus! – pensou, saindo correndo no rumo do pelotão por entre o povo gritando... não ...não...nããããão...! Seus gritos se perdiam no meio de outros gritos na procela formada. Caía e levantava, tropeçando na multidão que o pisava, descontrolada.

Merina desmaiou nos braços da madrasta ao ver Sabá na cadeira dentro da canoa, com uma cruz tosca no peito, enfiada por entre as cordas que o amarravam, o semblante desfigurado, tentando se soltar, parecendo ali muito maior que era e gritando coisas que ninguém entendia.
Zinhá e Bilinha o reconheceram também e choravam sem entender direito o que se passava, abanando Merina desfalecida e chamando por Nossa Senhora de Nazaré. As pessoas em volta nem prestavam atenção, o que queriam era ver de perto a visagem.

Quando voltou a si, a multidão ensandecida jogava tudo que achava pelo chão. A brigada com seus homens armados sob o comando do tenente Alvino - enquanto Merina gritava: Pára... pára... pára... é o meu marido! - tomavam posição de atirar, o tenente fazia mira. Merina correndo para os soldados: não... não... não... é o meu marido, pur Nossa Senhora de Nazaré, nããããããããão!





Zé do Tucano


Valei-me Padre Santo, foi o que primeiro pensou Zè do Tucano quando recobrou a consciência, quis se mexer e não conseguia, seu corpo era um torpor só. Sentiu foi a dormência nas pernas, nos braços amarrados, a boca repuxando pro lado, abriu os olhos, só enxergou água em volta; o sertão virou mar...?!

Um turbilhão invadiu seu pensamento. O corpo enrijecido contrafazia os movimentos que queria fazer, balançava com a marola. Sua consciência vinha e ia baldando, acompanhando o movimento. Caluta... Merina... Rema... rema... rema... Bité, lembrava tudo junto, era Sabá do Talho era Zé do Tucano. Misturava, Merina... Caluta... rema... rema... rema... o barulho das balas ricocheteando, rente a cabeça, as palhas ardendo, o fogo, a fumaça, o rosto do soldado que ele arrastava para tomar o uniforme.

Ouvia as palavras de Severo na última reunião da Guarda Católica, destacando quem ia furar o cerco e ajudar pela retaguarda do inimigo, atacando o comando das tropas e avariando a matadeira. Ouvia as palavras de Manel da Coroa, tu tem cabeça, Sabá....tu sabe neguciá ... Não conseguia mexer o corpo, as lembranças se misturavam sobrepondo as duas vidas com lampejos. Lembrou-se do Tucano onde nasceu, o pai morto de morte matada, a mãe enterrando filho por filho, seca por seca, até resolver seguir João Abade e o Beato.

Lembrou o Pau D’arco que fez nascer, o canto que ouviu quando lá chegou a primeira vez, entrando no igarapé. A consciência foi voltando no corpo dormente, endurecido pelo veneno, pervagando, a casa de taipa... o pau d’arco florido... mesmo antevendo a morte queria se soltar, contar a Merina quem era, falar da mãe, da procissão de Uauá, do santo Conselheiro, da guerra do Belo Monte.

O amor de Merina entrava pela vida que Zé do Tucano lembrava misturado com Caluta, a guerra... a guerra... agüenta Da Luz, foi cobra... foi cobra... deixa o menino com a gente dele... lambuza só nos prufano... Manel da Coroa num esquece a serra ... Zim... Zim... o balanço da montaria no corpo amarrado com transado, os dejetos escorrendo, a dor e o veneno correndo nas veias, desconforme.

A palha ardendo e ele atrás da tapera do Salobo esperando, já vestido de soldado, se misturar com eles. Passaram uns quatro, o último com uma bandeira na mão, quando o puxou para sangrar, sentiu aquela dor no rosto, nas costas, a escuridão foi adensando.

Dali um branco tomava conta e vinha pelo contar do tenente médico Dalfredo, sua inconsciência de quase ano... o Purus... os curumins afogados... sertão d’água... sertão d’água... Dotéia quero... quero... quero... caso com Caluta, mãe... ela quer... rema de proa, Bité... aprende Bité, evita o corcovo, menino, Dindinha ensinou escrevê e contá, Caluta; ensino ocê... vai fazê breu Dindinha... veneras, Caluta... reza... reza... reza... acode a igreja nova, Zé Preto... num morre Pichim, agüenta home de Deus...

Os benditos e ladainhas rezados por todos na igreja perpassando no meio da guerra... o alvitre do santo pai Conselheiro... corta a corda Bité... atira, atira Dalfredo... a matadeira estrugindo... desfalecia e acordava, sentia a baba escorrer, o balançar da canoa, o cheiro de vela, a voz do santo Conselheiro pregando na igreja velha, o cheiro da andiroba passada nos ferimentos por tanto tempo, Zinhá... Zinhá... suava, suava, desfalecia, sentindo o veneno roendo por dentro.

Viu os dois se entregando no barranco, lembrou Merina cheirando cravo e canela, lembrou Cabeção sangrando o soldado no barranco do Vaza-Barris quase seco. Tanto tudo no Pau d’Arco, no sertão d’água, tanto nada no sertão, rogai por nós, meu santo.

Os urubus no leito do rio... na vila... vamo interra ... no Curro... no Ver-o-Peso... Padre Santo... gente chegando, o Purus... corta o vapor, Adelmo... Belelo, dona Duca... Mããããe... mortos... tantos mortos... Quilimério explodindo atrás do tabique, Caluta num chora, corre pra igreja nova... muçu nucomo... muçu nucomo... panha a pixuna, Bité... sem munição Severo... vai no punhal Severo... Didoro, tu vem, é só um angelim, só a semana, traz Cimeu... tira as mulhé daí, o fogo vem cumendo pela rua do Brás... acode meu santo... serra direito Cimeu... Curiboque morreu...!? vamo arretirá as arma deles, amuntoa no beco... Zinhá... minha mãe... insídia, não vai Teço, corre... corre... alumia Rapinha, a vida vivendo na gente Rapinha...

O suadouro invadia o corpo e logo vinha o desfalecimento.

A maré levava a montaria de um lado pra outro da baía e na consciência que ia e vinha os lampejos de lembrar de suas vidas, a dor, um turbilhão latejava dentro da cabeça, vagando, vagava Zé do Tucano, vagava Sabá do Talho, tudo misturado, pungindo, ora sentente ora sentidor de bubuia no sertão d’água, até o banzeiro na frente do Ver-o-Peso.

Enxergava embaçado as velas dos igarités como fossem bandeiras vindo na frente de um batalhão de soldados estugados, o mar vai virar sertão...?! já virou sertão...!? sertão d’água... protege meu pai Conselheiro... num esforço sobre humano soltou uma das mãos, ofegando e, segurando a cruz feita pelo menino com ramas de mandioca sem livrar totalmente o braço, como se fosse um sabre segurado pelo corte, gritou com a voz tirada das entranhas e da alma:

- Viva Bom Jesus ... viva Antônio Conselheiro...





13 de Outubro


No primeiro movimento, o tenente Alvino engatilhou a arma, quando o ouviu bradar, atirou. Zé do Tucano recebeu a bala entre os olhos, findou ali. O Ver-o-Peso silenciou de repente. No ar somente os gritos lancinantes de Merina e, ao longe, o Pai Nosso que a procissão rezava, passando com a imagem de Nossa Senhora de Nazaré.

“... perdoai as nossas dívidas, assim como perdoamos os nossos devedores...”









FIM



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